sexta-feira, 17 de julho de 2015

A máscara.

 

Aqui estão reunidos vários conteúdos ligados ao tema da máscara 


recolhidos da literatura, a pintura ,o teatro e o cinema.



A máscara no seu significado imediato seria algo assim com um adereço

um disfarce apenas.


Pode ser associada a um embuste ou a uma ambiguidade.


No Brasil em alguns casos pode ser sinônimo de soberbia, a pessoa poder ser 

considerada "mascarada" se ela se comporta  com atitudes que detonem algum tipo de 

superioridade ou de auto valorização excedida do "permitido"..  
Quando falamos em desmascarar temos a ideia de mostrar a verdade por trás de um engano.

Para Borges era algo que ocultaria seguramente algo pior.   Scott Fitzgerald no livro 


Crack Up tinha falado sobre o tema dizendo que a vida é, obviamente, um processo de 


demolição, esta afirmação se refere á destruição das máscaras que temos que são 


devastadas com os anos e como elas caem e mostram, aos poucos, o verdadeiro da 


existência.



Em outra direção Cortazar termina o conto

 “O Perseguidor” 


com a morte do protagonista dizendo a frase “Faz-me uma 


máscara”, esta frase e tirada de um poema que persegue 


ao Perseguidor de Cortazar.O poema em questão é do 


Dylan Thomas chamado justamente “Faz-me uma 


máscara”.



O tema


O poema trata do tema de lidar com o social, da 

necessidade de preservar o interior e forjar um externo 


que possa lidar com o impessoal,

Aqui o poema:

“Oh, faz-me uma máscara e um muro que me esconda de teus espiões
Dos agudos olhos esmaltados e das garras que denunciam
O estupro e a rebeldia nos viveiros de meu rosto,

Uma mordaça de árvores mudas que me guarde da nudez dos inimigos,
Uma língua de baioneta nesse indefeso fragmento de oração,
Torna loquaz a minha boca, e que ela seja uma trombeta de mentiras
[soprada com doçura,
Dá-me as feições de um estúpido entalhado no carvalho e na velha
[armadura
Para escudar o cérebro brilhante e confundir os inquisidores,


E uma dor viúva manchada de lágrimas caídas das pestanas
Para dissimular a beladona e fazer com que os olhos secos percebam
Que outros atraiçoam as lamentosas mentiras de suas perdas
Através do arco dos lábios nus e do riso à socapa.”

Dylan Thomas .



Na primeira parte compara á máscara com um muro que me esconda do mundo hostil. 
Na segunda parte continua com a imagem mais agora incorpora a ideia de que essa máscara nos traía a sabedoria do silencio e as armas da fala.Destacamos a beleza da frase:” trombeta de mentiras , soprada com doçura” ..
Segue falando o poeta pedindo para ter um aspecto de tolo que esconda sua inteligência.Termina  dizendo que queria poder passar uma dor para ocultar o colírio , o brilho do olhar (bela dona)

E perceber a dor que outros traíram. simulando com seus risos desenhados (sorrisos ocultados pela manga da camisa ).



Julio Cortazar .

As palavras que usamos no nosso dia a dia não são mais que máscaras insuficientes.
(Historias de cronopios e de famas).

Toda diversão é como uma conciencia de máscara que acaba por animar-se e suplanta o rostro real. 

Dispongo de una serie de respuestas: para los días de sol, para las noches de tormenta... Una surtida colección de máscaras y detrás, creo, un agujero negro..

—Oh, las máscaras. Uno tiende siempre a pensar en el rostro que esconden, pero en realidad lo que cuenta es la máscara, que sea ésa y no otra. Dime qué máscara usas y te diré qué cara tienes. 

-Otra cosa más inmediata, menos copulable por la palabra, algo libre de tradición para que por fin lo que toda tradición enmascara surja como un alfanje de plutonio a través de un biombo lleno de historias pintadas

(Os prêmios).


Tal vez sea necesario el reposo, tal vez en algún momento el guitarrista azul deja caer el brazo y la boca sexual calla y se ahueca, entra en sí misma como horriblemente se ahueca y entra en sí mismo un guante abandonado en una cama. A esa hora de desapego y de cansancio (porque el reposo es eufemismo de derrota, y el sueño máscara de una nada metida en cada poro de la vida), la imagen apenas antropomórfica, desdeñosamente pintada por Picasso en un cuadro que fue de Apollinaire, figura más que nunca la comedia en su punto de fusión, cuando todo se inmoviliza antes de estallar en el acorde que resolverá la tensión insoportable. 
(Os prêmios).

Celine. 


Celine também se vale da imagem da máscara para descrever uma situação existencial, aqui uma citação do romance de Celine "Viagem ao fim da noite" onde se fala também sombre o tema.
"“É melhor não ficar se iludindo, as pessoas não tem para se dizer só falam das suas próprias dores as delas,  de cada uma, é claro. Cada um por si, a terra por todos. Tentam se livrar da sua dor, em cima do outro,  no momento do amor, mas aí não funciona e por mais que façam guardam- na inteirinha a sua dor, e recomeçam,  tentam mais uma vez dar-lhe um fim “ A senhorita é bonita “, dizem. E a vida recomeça, até a próxima  em que se tentara de novo o pequeno truque. : “ A senhorita é muito bonita”.
E depois desse meio tempo a se  gabarem de ter conseguido se livrar da sua dor, mas todos sabem muito bem não é mesmo que não é verdade de jeito nenhum  e que pura e simplesmente a guardamos inteira para nós.  Como vamos ficando cada vez mais feios e repugnantes  com essa brincadeira, ao envelhecer-nos não podemos sequer disfarçá-la, nossa dor,  nossa falência, e acabamos ficando com o rosto todo tomado por essa careta abominável. Que leva seus vinte anos, seus trinta anos e mais para afinal lhe subir de barriga ao rosto.  É para isso que serve, só para isso, um homem, uma careta, que leda uma vida para fabricar, e ainda assim nem sempre consegue concluí-la de tal forma ela é pesada e complicada a careta que teria de fazer para expressar toda a sua verdadeira alma sem nada perder.".


Brecht

Brecht dedicou um poema a como cansa a postura do mal



A Máscara Do Mal

Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mal
Bertolt Brecht



A morte e a mascara de James Ensor.

Agora vou colocar duas imagems expressionistas, justamente que tem como tema A Mascara
James Ensor  (1860-1949)
Ensor pinta fantasmas, caricatos. A mascara se converte na expressão do ameaçador e desconhecido . O assombro da câmara de Wouse, A mascara e a morte. parecem criticar a sociedade com esta pintura ao  mostrar-la como algo grotesco. 
A presença da morte e de personagens cegos ajudam a criar um ambiente fantasmagórico.
Aqui citamos ao escritor americano Nathaniel Hawthorne sobre a máscara: “Ningún hombre, por un período considerable de tiempo, puede usar una cara para consigo mismo y otra para la multitud, sin finalmente confundirse respecto a cuál es la verdadera”.



Eugene O´Neill.   

          Jorge Luis Borges diz no prologo da edição argentina de três peças da obra de O'Neill que ele tinha se inquietado pelas máscaras e que as usou de modo que não tinham suspeitado os gregos nem o teatro Nõ.

O grande Deus Brown.

Eugene O´Neill escreve  esta peça de teatro e coloca em cada ator uma máscara com seu próprio rosto, com este recurso duplica de algum modo cada personagem trazendo um lado externo, epidérmico, social e outro próprio.
Os dois lados são reais e os dos representam a mesma pessoa, eles podem se fazer pelo outro se pegam e se colocam sua máscara.
A dupla Brown e Dion representam o americano bem sucedido economicamente e o talento e o submundo.


Os dois personagens femininos Margaret e Cybell (mulher e amante de Dion)  são o responsáveis de simbolizar aquilo que o poder não pode comprar.


A Electra lhe cai bem o luto.



A alegoria da máscara recorrente em  O´Neill ,se faz presente em vários sentidos, por um lado é como uma marca, o fato de pertencer a uma família, os rostos dos atores  e a fachada da mansão familiar tem a rigidez das máscaras: “Algo segredo...como se tivesse uma máscara, uma marca dos Mannon”.
Por outro lado a máscara ocupa o lugar de uma  copia: “Tem-se de imediato a estranha impressão de que em repouso, não é carne viva, senão uma pálida máscara que imita maravilhosamente a vida”...
Mais uma alegoria relacionada com a máscara: “A lua em quarto minguante projeta a luz sobre a casa, lhe dando tonalidades irreais, longínquas, imponentes. A brancura da fachada do templo se assemelha , mais do que nunca, uma incongruente máscara, fixada sobre a sombria mansão de pedra”.
A máscara também com sinônimo de semelhança do real e do representado: “Todos os rostos dos retratos tem a mesma tonalidade de máscaras que a dos personagens vivos do drama”.
Aqui descrevendo o cadáver de Ezra Mannon usa a imagem da máscara como uma imitação distante do verdadeiro: “Seu rosto de máscara é uma surpreendente reprodução do rosto do retrato; mas sombriamente longínquo e austero na morte, como o esculpido rosto de uma estatua”.
Aqui a máscara mais como uma duplicidade que oculta algo pior do que é visível: “Baixo a máscara do seu rosto há profundas rugas”.
Em fim em O´Neill  esta imagem desenvolve vários atributos e significados ampliando o conceito de máscara elevando seus simbolismo e suas possibilidades.


A máscara como sinônimo de hipocrisia.


No Tartufo de Moliere se descreve esta figura dramática como a personificação da falsidade.
Tartufo é um personagem histórico que se- valendo de recursos de sedução consegue tirar proveito e vantagens.
No primeiro ato o autor menciona a máscara para se referir a uma imagem que carrega o simbólico da mentira e do embuste.
“Queres fazer o mesmo honor a máscara que a verdade, igualar o artifício com a sinceridade, confundir a aparência com o real, apreciar o fantasma tanto como a pessoa e a falsa moeda igual que a boa?”
Em uma outra obra , do cinema mudo, o Mornau nos atualiza esta imagem da máscara como símbolo da falsidade.
No começo do filme do Mornau  “Tartufo”,de 1925,  o diretor coloca em cena a ideia da máscara associada com a hipocrisia, conceito que de algum modo define toda a perspectiva da obra.

A máscara no imaginário infantil .
Ben Shahn ( 1898 – 1969)





















A máscara no teatro Nõ

Em Oriente existe a tradição da máscara em varias direções, ligada a ritos, cerimonias, festas e ao teatro, as máscaras no teatro Nõ podem representar a mulher jovem, o homem velho, o demônio ...são sempre atores masculinos, normalmente só o personagem principal a usa. O sentido seria passar uma sensação de misterio e de neutralidade, Dominique Buisson acredita que seria possivel comprender o proprio espirito dos japonesses no seus rostos.
Duas curiosidades em determinada peça o ator só coloca a máscara no palco e frente a um espelho aguarda incorporar a personagem
A máscara da mulher sozinha é a mais carregada de significações:pode simbolizar a leveza , a sedução, a paixão ou o sofrimento.




Para quem queira se aprofundar no tema recomendamos a leitura de este artigo publicado no Blog
Aqui um filme poético onde se introduz a imagem dessa máscara
https://youtu.be/SnbYnGhvnNA


Joseph Conrad .


O autor, no livro "O coração das trevas" (Heart of Darkness),  ambientada na Africa de fins do século XIX utiliza a imagem da máscara quando se refere à paisagem de floresta fechada que o protagonista narrador atravessa: O clima do conto, ameaçador o tempo todo, inspirou o filme Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, Aqui a frase:  "a floresta permanecia inamovível, como uma máscara pesada, Como a porta fechada de uma prisão".

No conto  The Rove ,"Com a corda no pescoço", a máscara aparece de novo, agora como imagem de algo que oculta outra realidade. Conrand descreve o mar como uma força brutal por trás de uma aparente calma: “Uma ligeira brisa bastava para arrancar do mar sua máscara serena”.

Edgar Bayley.

Aqui temos uma imagem linda : Uma máscara de madeira que anuncia um olhar profundo.

ES INFINITA ESTA RIQUEZA ABANDONADA
Edgar Bayley
Esta mano no es la mano ni la piel de tu alegría
al fondo de las calles encuentras siempre otro cielo
tras el cielo hay siempre otra hierba playas distintas
nunca terminará es infinita esta riqueza abandonada
nunca supongas que la espuma del alba se ha extinguido
después del rostro hay otro rostro
tras la marcha de tu amante hay otra marcha
tras el canto un nuevo roce se prolonga
y las madrugadas esconden abecedarios inauditos islas remotas
siempre será así
algunas veces tu sueño cree haberlo dicho todo
pero otro sueño se levanta y no es lo mismo
entonces tú vuelves a las manos al corazón de todos de cualquiera
no eres el mismo no son los mismos
otros saben la palabra tú la ignoras
otros saben olvidar los hechos innecesarios
y levantan su pulgar han olvidado
tú has de volver no importa tu fracaso
nunca terminará es infinita esta riqueza abandonada
y cada gesto cada forma de amor o de reproche
entre las últimas risas el dolor y los comienzos
encontrará el agrio viento y las estrellas vencidas
una máscara de abedul presagia la visión
has querido ver
en el fondo del día
lo has conseguido algunas veces
el río llega a los dioses
sube murmullos lejanos a la claridad del sol
amenazas
resplandor en frío
no esperas nada
sino la ruta del sol y de la pena
nunca terminará es infinita esta riqueza abandonada.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

O encarregado da antena.


O encarregado da antena.

Ao sul do Rio Tintilaque perto do vale do açude vivia, não há muito tempo, um homem que por razões fortuitas se tornou importante na região (anos mais tarde, os arquivos policiais lembrariam com algum esmero detalhes da tragédia de cores burlescos quando o Seu Bráulio , o encarregado, esteve aos cuidados da antena).
Resulta que perto do vale do açude, numa pequena vila perdida nos cafundós do Judas, conhecida com o irônico nome de Vila da Fortuna, existia uma antena, de grandes proporções, que centralizava as transmissões de televisão, rádio, as ligações telefônicas e também as conexões da internet. Nesta antena existia uma luz vermelha, para os forasteiros a luz vermelha na ponta da antena parecia um verdadeiro farol, um sinal para todos que se aproximavam da aldeia, as pessoas comentavam para se situar: “a lanchonete fica um pouco atrás da antena”, ou “a casa de Seu Antonio fica a dois quarteirões do lado direito do farol vermelho”, ou “a farmácia de Dona Eunice fica bem justo na frente da aquela luz da antena”...
A antena, tinha duas partes, primeiro uma base e depois um miolo, o alicerce era formado por um imenso e solido apoio de metal que media aproximadamente uns 30 metros de altura e uns 5 metros de diâmetro, este sustentava o que podemos chamar como a própria antena: um objeto metálico formado por alguns cilindros deitados de forma gradativa que representavam o cérebro do monumento; incrustado lá no alto como um rubi brilhava um enorme farol com vidro vermelho que sinalizava a existência da imensa coluna para o transito aéreo, o gigante obelisco terminava em três ferros em ponta cruzados com função de pára-raios.
Do lado do colosso metálico tinha uma pequena oficina onde funcionava o escritório desde onde a antena era comandada, sentado na sua grande cadeira, na Sede da Administração, cercado por botões, computadores e monitores, estava um senhor que aos poucos foi tomando relevância no arraial devido a que seu cargo acabou sendo de grande valia.
Para o imaginário da Vila da Fortuna a antena era uma espécie de ouvido e de olho gigante.  Desde seu centro de poder, o encarregado tinha acesso a todas as comunicações e suspeitavam que tivesse como escutar as conversas, como se imiscuir nas intimidades e nas intrigas de todos os habitantes da região.
Na realidade, o emprego era menor, ele apenas era o encarregado da antena, mais seu poder era real, a possibilidade de poder grampear telefones ou espionar imagens fazia dele uma espécie de todo poderoso capaz de conhecer os segredos da população.
Existe leis universais que seriam aconselháveis lembrar nessas horas: como a que diz que muito poder na mão de um imprudente pode fazer perder o senso de retidão e ainda, como o proibido instiga ao homem no desejo, na curiosidade; o tabu ao invés de provocar a aceitação do oculto, acende a chama; equívocos de nosso comportamento, fazer o que?
Seu Bráulio além do mais era preguiçoso, nem fazia o trabalho pesado, as vezes que a antena sofria algum tipo de problema pelo qual precisava ser endireitada ou se ocorresse algum tipo de irregularidade no ajustamento do seu eixo após uma tormenta ou uma forte ventania, ele recorria a um ajudante, um moleque experto chamado Beto que subia e descia aquelas escadas vertiginosas com a destreza de um gato.

Desde sua cabine orientava ao garoto com sinais e com gritos até ele acertar o lugar adequado onde a antena pegava melhor, “Seu Bráulio, berrava o rapaz - lá do alto- assim ficou boa?”. “Beto, mexe mais para a esquerda- respondia seu Bráulio acompanhando sua indicação com gestos expressivos-“.
Depois da ultima chuva a internet tinha ficado um horror e seu Bráulio era alvo de todo tipo de criticas e reclamos na Vila. As pessoas o paravam na rua e o interpelavam perguntando pelo sinal: “seu Bráulio o sinal caiu?” Ele, com o queixo empinado, respondia com evasivas e passava entre os habitantes do Vale; segurando a suas calças sempre caindo e se dando uma importância desmedida- temos que comentar que este tipo de atitudes começou a irritar a população e aos poucos sua pose arrogante foi gerando uma antipatia irreversível,ele era um pouco obeso, falastrão e seu cargo o tinha transformado em um ser soberbo e intriguista-.
Uma noite Seu Bráulio tinha bebido demais, estava voltando para casa e cruzou com uma vizinha bem em frente ao corredor da alameda, e falou: ”deixa ele, o seu amor é uma armadilha”, a nossa vizinha, Maria de Lurdes ficou surpresa com a insinuação, chegou a casa e comentou com seu namorado pela internet o que tinha sucedido, o episódio foi esquecido mais ficou registrado na sua memória a possibilidade de que o Seu Bráulio estivesse bisbilhotando suas conversas;  a partir de então as pessoas começaram a  perceber um dos seus piores defeitos: o encarregado da antena gostava de imiscuir na vida dos habitantes da Vila.
Em outra ocasião o seu Hermenegildo saiu a beber na taberna do Vale e escutou a Seu Bráulio falando com o Seu Agustín (dono da quitanda) sobre a cor da roupa intima de uma mulher de nome Etelvina, como ele conhecia uma Etelvina, aguçou a orelha e percebeu que o encarregado da antena estava descrevendo uma cena que ele tinha descoberto grampeando a caixa de mensagens de um telefone celular.
Semanas depois outro habitante do Vale, Seu Sebastião se interou que sua mulher tinha sido citada em uma conversa sobre troca de casais em um motel ocorrida numa cidade próxima depois que seu Bráulio comentara o caso na saída da igreja com Dona Erenilce.
Outro ponto alto foi quando o próprio padre Claudio, responsável pela paróquia, descobre um grampo no seu telefone e suspeita que sua relação amorosa como a filha de Dona Miranda, durante anos mantida em sigilo, se instala na boca do povo todo do Vale.
O boato de que a intimidade estava sendo exposta em publico criou um monstro gigante que descia e subia pelas ruas da Vila da Fortuna similar ao zumbido de milhões de abelhas tomando conta do imaginário popular, a Vila parecia assim vigiada por uma espécie de juiz todo poderoso e severo; o pavor entre as mulheres que costumavam namorar no telefone, enviar fotos ou mensagens atrevidas a seus parceiros e a iminência de um escândalo de grandes proporções criou um tremor surdo entre os habitantes da Vila que concentrou todas as atenções e provocou a desistência de toda e qualquer insinuação de tom mais sensual em qualquer tipo de chamado. 
O clima de tensão na Vila chegou a tal ponto que o padre Claudio, tomou a iniciativa: decidiu reunir o pessoal envolvido e avaliar quais seriam as medidas necessárias que se poderia tomar para colocar um ponto final em toda esta desfaçatez.

Na reunião tinham alguns vizinhos importantes, um advogado, um estudioso de filosofia, algum dos implicados e até o chefe da delegacia do Vale da Fortuna foi convidado, o padre Claudio abriu a reunião comentando os últimos fatos que tinham acontecido e que já eram de publico conhecimento, fez um chamado ao povo da Vila da Fortuna lembrou o clima de boa disposição e de amizade que reinava no lugar no passado e passou a palavra para o professor, assim como era chamado Seu Augusto Bortilho, graduado em filosofia, este citou uma frase de Sócrates para começar sua locução “Amicus Plato, sed magi amiga vertias” (Platão é meu amigo, maior é minha amiga verdade) como querendo dizer que fora a amizade entre os vizinhos existia um compromisso maior com a veracidade (foi aplaudido), tomou a palavra o jurista Seu Tulio das Casas, ele se recostou na poltrona e também citou umas palavras em latim para abrir a sua intervenção: “nos temos que remeter aos argumentum ad rem” (argumento da coisa, dos fatos) chamado o povo a tentar se remeter aos casos concretos e não aos falatórios ; o pessoal mais jovem zombou do tom protocolar e rebuscado das intervenções dos ilustres vizinhos da Vila até que um jovem estudante de direito comentou possíveis encaminhamentos em um tom prático:  “exatamente precisamos fatos se queremos processar ele ou realizar uma acusação formal, temos que provar sua culpabilidade, temos que detalhar alguma ocorrência com data, hora, lugar, narrar o que aconteceu realmente" (as pessoas aplaudiram a sua sensatez). Passaram vários oradores e com decorrer das conversas as pessoas perceberam o caráter frágil das incriminações, ficaram um pouco receosas de iniciar uma denúncia contra Seu Bráulio conhecendo os tempos demorados da lei e até duvidando de poder demonstrar na justiça a veracidade das acusações. A professora Etelvina de Sarte que tinha ficado observando aos oradores, fazendo uso da  sapiência e astucia feminina, comentou: “penso que seria melhor ir todos juntos na porta do seu gabinete e encará-lo pessoalmente para que  perceba de perto nosso aborrecimento”, todos aplaudiram a posição da nossa amiga e marcaram para a segunda feira seguinte às 20 horas na porta da igreja para caminhar juntos até o escritório do encarregado.
O fim de semana anterior ao dia marcado para o encontro foi uma trégua para todos porque na Vila estavam acontecendo às tradicionais festas juninas, a população estava toda em volta da praça central, os sinos rajados da igreja batiam às 18 horas e as barracas coloridas faziam esquecer por momentos o clima de apreensão que se vivia entre a população, sobretudo nas mulheres - lembrando sempre que o obsceno cora o rosto feminino e enche o peito masculino -.
A festa era linda, as “maças do amor” de um vermelho crocante davam água na boca, tinha a barraca do quebra-queixo, os cânticos dos feirantes “olha a pamonha, quentinha!!!”, amendoim torradinho, torradinho” ;  o forró corria solto, os trios tocando Luiz Gonzaga e Jakson do pandeiro no palco principal; o cheiro das carnes asadas, o bolo de aipim e a fumaça das fogueiras tingiam o cenário, as barracas de jogos :  tinha a pescaria, o jogo de derrubar as latas enfileiradas, o tiro ao alvo...se bebia muita cerveja e na barraca do quentão tinha encostado o “corno-melancólico”, Paulinho, um velho alcoólatra que tinha sofrido o abandono da sua parceira há anos mais continuava falando dela depois de alguns drink’s;  as danças de quadrilha, as roupas de caipira , a beleza das meninas vestidas com tecidos de chita colorida e a vida festiva se realizando naquela praça do interior mantiveram um clima de leveza nas horas que antecederam o dia fatídico . 
Para ser ter uma idéia do clima de apreensão, as mulheres se sentiam como se estivessem sendo atravessadas por raios-X moralistas que expunham publicamente seus segredos mais audaciosos, a professora Ana Claudia era uma delas, tinha se apaixonado por um rapaz que morava fora da cidade e costumava dedicar a ele frases amorosas e até troca de fotos, algumas um pouco vergonhosas de serem reveladas aos quatro ventos, a queda das relações mais comprometedoras tinham trazido até um esfriamento na sua relação porque é claro que se criou uma distancia prudente no diálogo intimo do casal depois dos últimos acontecimentos.
A professora até tinha confessado com tristeza os fatos que aconteciam na sua relação com um amigo poeta e cantor que fazia às vezes de menestrel popular e alegrava com seu violão as tardes na Vila, ela no meio dos carrinhos de pipoca, dos tabuleiros de tapiocas e outras iguarias encontrou com ele, e Michael, que assim se chamava o artista, comentou que tinha feito uma música inspirado no que estava acontecendo na relação amorosa dela, curiosa que estava, Ana Claudia, perguntou se poderia escutar a composição, ele tomou seu violão e diz:  a música se chama “Disfarça”:

“Longe de ti e sem teus beijos,
Minha vida pouco vale,
Declina à tarde e no seu ocaso
Meu mundo esta junto a ti.
-----------------
Quero te amar mais não consigo
Ele não deixa nos encontrar
Por isso não me canso de repetir
Disfarça meu amor temos que esperar.

----------------
Oh besouro preto, besouro de ouro
Sei que ele nos quer olhar
Oh besouro preto, besouro de ouro
Sei que ainda assim podemos nos encontrar
----------------------
Olha em frente sem medos
Vamos sair de mãos dadas
Não me importa que nos olhem
Nada me importa mais do que nós dois”.


                                                                                                                                            
Na própria segunda feira marcada os muros do gabinete tinham amanhecido pintados com a inscrição: “Aqui mora um traidor”, uma criança na escola tinha incorporado o clima que se vivia na Vila para realizar sua redação na aula de português, reproduzimos aqui um pouco da eloquente narração: “olhava pela janela e vi as pessoas tristes, tudo parecia diferente, que acontece? perguntei-me e rapidamente chegou até a mim à resposta, não sei por que, mas minha cidade é pequena demais para que as coisas fiquem ocultas, tudo se sabe, espero que ele se arrependa de ter aberto a boca..”
Chegou o dia esperado, aos poucos os vizinhos começaram a chegar uns a pé outros a cavalo, era uma noite fria e obscura de junho, a lua cheia se escondia detrás de nuvens chuvosas e os cachorros latiam e uivavam criando um cenário carregado.
Alguns trouxeram tochas acessas para iluminar a caminhada,  o fogo serviu para reforçar um clima ameaçador, estava lá Dona Erenilce citada como testemunha em relação ao caso da troca de casais, Seu Hermenegildo, Etelvina, a Maria de Lurdes que tinha escutado aquela indireta e o seu namorado que queria se vingar de qualquer jeito do encarregado, ele apenas repetia sem cessar: “Ele tem que aprender a não meter seu nariz onde não corresponde”.
O gabinete de Seu Bráulio foi cercado, as pessoas em circulo se acomodaram para olhar em direção a porta de entrada e alguém entre os convocados gritou: “CHEGA!”, aquela palavra parecia o detonador de uma tormenta de pedras porque a partir disso a multidão enfurecida começou a produzir todo tipo de gestos e a pronunciar todo tipo de palavrões que fizeram incendiar a noite na Vila Fortuna como numa chuva de estrelas.
Um silencio sepulcral se fez quando a porta do gabinete se abriu, o barulho do enferrujado como um grito seco criou um expectativa eterna, o ranger da porta deixou ver uma silhueta recortada por una luz em contraste; até que finalmente a figura de Seu Bráulio se definiu na frente da multidão, se ajeitando as calças levantou a cabeça, deixou ver seu rostro seboso , seu olhar debochado,  uma tose ronca para provocar respeito foi o que antecedeu a sua voz firme: “que querem aqui?-perguntou- não sabem de nada, não tem provas de nada e ainda querem me ameaçar e insultar como a um fora- da- lei, sou uma pessoa honesta e, digo mais,  se algum de vocês ousa me acusar de algo quero ver as provas , quero saber se existe alguma pessoa de bem , uma pessoa que se dê ao respeito em toda esta Vila e que possa falar comigo cara a cara, respondam!!!!”.
Outra pausa, e um murmúrio entre os manifestantes, até que o namorado da primeira vitima deu um passo na frente, as pessoas se afastaram e ele encarou ao Seu Bráulio olhando no olho, fez uma interrupção e respondeu: “você falou com minha namorada pra ela me deixar como se eu fosse uma armadilha”, isso é verdade?
O encarregado da antena levantou a voz e disse, com seu jeito loquaz: “Isso é verdade, você é uma armadilha, que quer, que fale pra ela que você vale à pena”?
As pessoas que tinham a consciência culposa ficaram desnorteadas com a reposta do Seu Bráulio, pensaram que ele iria recuar, disfarçar ou no máximo pedir perdão por ter tido uma postura de xereta, mas agora, a possibilidade de elas se verem expostas depois da atitude que ele tinha adotado mudava toda a estratégia de ataque contra o falastrão.
O padre foi o primeiro a repensar a ofensiva, a Dona Erenilce achou prudente em condição de mera testemunha não criar uma situação constrangedora para os casais envolvidos no caso da troca no motel e preferiu a discrição.
As pessoas tiveram um momento de incerteza mais apareceu um homem que ninguém conhecia na Vila que encarou o seu Bráulio e falou: “você não me conhece, nem vou comentar o nome da minha namorada para não comprometer sua reputação em público mais a partir de que você fica se metendo a tomar conta das conversas da gente ela não quer saber mais nada de comentar alguma intimidade, tá me ouvindo?”.
O tom utilizado pelo sujeito era ameaçador, o seu Bráulio, olhou pra ele, coçou a cabeça e falou “você é aquele promíscuo que fica namorando até altas horas trocando todo tipo de segredinhos com sua parceira? Ainda não entendeu que ela quer cair fora? Você deve ser aquele que para disfarçar, trocaram os nomes por besouro negro e besouro de ouro , estou certo?” – quando o encarregado tinha pronunciado a palavra namorando usou um tom tão irônico que irritou as pessoas que assistiam a cena mas,  agora quando colocou em público os apelidos do casal - o Seu Bráulio soltou uma gargalhada histérica que caiu na multidão como um verdadeiro insulto.
Foi à gota d’ água, o clima ficou tenso e seu Bráulio olhou ainda com ar desafiante, a professora ficou indignada, tirou seu calçado e soltou o grito ensurdecedor, segundos mais tarde um sapato certeiro voou para a cabeça dele que o acertou em cheio no olho direto, ele deu um passo em falso para trás e caiu, a multidão entendeu que este seria o momento preciso para atacá-lo e avançou com toda uma serie de golpes, chutes e pancadas até deixar ele estendido no chão.
“Vamos fazer o que?” perguntaram alguns. Já sei, respondeu Etelvina (uma das vitimas do encarregado): “vamos pendurar seu corpo na porta da taberna dentro de uma rede e todo o mundo que entrar e sair tem que cuspir nele”. ”Não, respondeu seu Hermenegildo, vamos chutar ele até aquele precipício e jogar ele pra baixo para ele estourar os miolos na queda, vamos parar com isso, diz o padre”, a professora Etelvina falou: “vamos dar choque elétrico nele”; uma vizinha, no entanto, pensou que ele teria que ser obrigado a ficar de joelhos no milho, subir e descer as escadas da igreja sem parar pelo resto da sua vida, mas desistiu de externar sua idéia,”não, não- respondeu Maria de Lurdes- vamos passar mel pelo seu corpo, pendurar-lo na antena e deixá-lo lá  em cima perto do farol até  ser devorado pelas aves de rapina”. Todos responderam ao uníssono: “isso sim, isso mesmo!”.
O castigo tinha sido escolhido, mas ninguém podia imaginar como poderiam elevar o corpo do Seu Bráulio até a ponta da antena sendo que a única via de acesso era uma pequena escada de metal de uns poucos centímetros e o peso morto do corpo dificultaria o acesso.
Penduraram cordas e roldanas, criaram um engenhoso sistema de carga, lambuzaram todo seu corpo com mel e entre todos os homens começaram a elevar o peso, alguns gritavam: “vai Seu Bráulio, que os pássaros não se engasguem com seus ossos”, uns riam e outros soltavam insultos motivados por suas causas pessoais.
O corpo se elevou por cinco metros até que o seu Bráulio acordou e viu seu corpo pendurado nas alturas, amarrado e coberto de uma substância pegajosa que não conseguia identificar, ai gritou: "Tirem-me daqui “...mas o povo nada de desistir do castigo, no intuito de se livrar das cordas e do engomado do mel acabou ficando semi-nu, no seu instinto de sair daquela situação acabou caindo da altura de cinco metros, primeiro sobre uma árvore para depois se chocar contra o chão e perder a consciência, formigas atraídas pelo cheiro do mel em alguns minutos cobriam parte do seu corpo. 
A polícia foi acionada e a noite ajudou a acobertar a multidão que rapidamente se desfez deixando o corpo quase nu no chão, mordido pelos insetos, a metros da antena da Vila.
Seu Bráulio recobrou os sentidos já na delegacia para onde foi levado, algumas horas mais tarde liberado voltou para seu gabinete tomou seus pertences para nunca mais ninguém ter noticias sobre sua existência.
                                                                                                                                           
As pessoas na Vila da Fortuna retornaram suas atividades, os casais se reencontraram. Venceram o pudor? Um manto generoso fez retornar a compostura prévia ao escândalo que reinava na Vila.
Uma manhã de inverno um novo encarregado assumiu o controle da antena na Vila da Fortuna, uma camisa lambuzada de mel e comida pelos insetos foi o que sobrou do último episódio que envolvia Seu Bráulio, duas crianças distraídas brincam na praça central e os sinos da igreja marcam o meio dia de uma quarta feira tíbia. A vida continuava na Vila como se nada.


















quarta-feira, 20 de maio de 2015

As aventuras de Tom Sawyer ( uma volta ao passado)

Tom Sawyer

É muito difícil escrever literatura realista se situando no mundo dos pré-adolescentes, quase sempre os adultos que se apropriam de esse universo para seus relatos não conseguem realizar-lo porque são muito didáticos, moralistas ou artificiais.
Poucos, se animam, se encorajam a se adentrar nesse mundo e se saírem vitoriosos, me vem a memória a “Ilha do tesouro” de Stevensom ou alugumas das novelas de Charles Dickens e textos de Oscar Wilde como um exemplo de narrações bem sucedidas neste sentido e é claro esta que hoje vamos a comentar que é “ As Aventuras de tom Sawyer” de Mark Twain .
“Alice no país das maravilhas” de Lewis Carol  ou “Pinóquio” de  Carlo Callodi poderiam ser incluídas como parte desta literatura juvenil mais considero estas duas como dentro de um realismo fantástico.
As outras experiências tipo “Peter Pan” ou as fábulas de Esopo ou as narrações dos irmãos Grimm ou Hienekke Rapoza do Goethe, por exemplo, embora belíssimas, não podem se comparar com o texto do Mark Twain por se tratarem de obras baseadas em historias
folclóricas ou  fábulas de tom didático mais não dedicadas as crianças.
"Existem contos dentro das "Mil e uma noites" e dentro do Decamerão que também poderiam ser incluídas dentro desta linhagem de narrações lendárias ou mitos.  
O valor do MarkTwain é ter dado ao ambiente narrativo uma literatura não apenas fotográfica mais também uma conotação cálida e uma verossimilhança encantadora.

Os méritos do romance.

Primeiro introduzir uma lucidez nos personagens e no narrador, a maioria dos textos destinados ao público pré-adolescente é careta, formal, falam de modo artificial e moralista.
Por exemplo, os personagens embora muito jovens sentem tédio, vazio, solidão, angustia, ciúmes, cobiça, raiva, em fim, sentimentos que quase nunca são atribuídos a eles quando se descreve um personagem assim.
Segundo o humor inteligente, a cena do Tom enganando aos seus amigos para induzir-los a pintar a cerca de sua casa enquanto que ele fica olhando e ainda cobrando recompensas é ilharia.
O desinteresse material na atitude de alguns dos personagens, o co-protagonista Huck Finn, por exemplo, no final do romance , mesmo sendo ele mendigo, rechaça o conforto e o cuidado de uma anciã que se propõe adotá-lo para continuar a viver sua vida sem horários, sem regras e sem medidas.
As reflexões do narrador: “Descobrira- uma grande lei que aciona o mundo- sem o saber que o homem possa cobiçar uma coisa basta tornar essa coisa difícil de obter”.
O próprio autor se coloca como filósofo e afirma a seguir que “Trabalho consiste em tudo o que a gente é “obrigado” a fazer e Divertimento  é tudo aquilo que a gente não é obrigado a fazer.
Isso ajudaria a compreender porque fazer flores artificiais ou  dar volta ao muinho é trabalho em quanto que jogar golfe ou escalar o monte Branco é prazer”.

Sinopse

O romance se divide formalmente em capítulos mais na realidade em quadros, temos o quadro no qual ele pinta a cerca que comentamos, a relação dele com sua tia Polly , o noivado  de Tom com Becky Tatcher , o quadro na igreja quando ele finge conhecer mais de 200 trechos bíblicos, a cena do assassinato no cemitério,  a historia deles se pensando piratas , a historia do tesouro, a cena de Tom e Becky perdidos na caverna e outras pequenas cenas hilárias que fazem o roteiro sempre interessante e dinâmico.

Criticas

Muitas vezes o protagonista se coloca do lado certo defendendo princípios morais, por exemplo, Tom, em um gesto “nobre” (coloco entre aspas porque ele, na realidade, faz isso para ganhar o amor da Becky) sai em defesa da sua amada quando ela esta sendo acusada na aula por ter faltado o respeito com o professor, ele para protegê-la  assume um delito que não fez e recebe a palmatória no lugar dela,  ou quando ele se sensibiliza com uma acusação falsa  de homicídio e decide defender a uma pessoa inocente durante um julgamento.
Mais, temos algumas passagens onde o autor mostra seu preconceito racial, em determinado momento  do romance aparece esta fala: “ Tom ele é um negro muito bom as vezes me sinto a comer com ele! Mais não deves falar isso (responde Tom). Quando a  gente esta morto de fome, é forçado a fazer coisas que não faria em estado normal”.
Sei que no sul dos EE.UU naquela época  ( a obra foi publicada em 1876)é até no faz muito tempo era normal ter essa visão das coisas, agora é uma pena que o Mark Twain seja pego em um mancada dessas, paciência.
 Humor

Existem vários tipos de humor na obra, um mais infantil, tipo "os três patetas, Chaplin, o gordo e o magro"  que se produz quando o Tom se vinga do seu irmão alcaguete por exemplo e outro mais irônico e mais adulto.
Vou comentar um caso muito ingenioso que o Mark Twain coloca com muita perspicácia, em um determinado momento o autor ridiculiza o tom solene das redações dos estudantes da época.
Isto é algo delicado porque ele tem que escrever de modo "errado", para poder dar o efeito de uma literatura de segunda qualidade.
"Negra e tempestuosa era a noite. Nos céus lá em cima nem uma estrela brilhava...termina com a frase...Minha amiga, minha alegria na dor, veio para meu lado".
Ele ri do tom de sermão de certa "literatura" metida a exemplar e mostra toda seu sentido do humor delicado com uma sutileza de mestre..


Minha experiência com a obra.

Conheci pessoalmente o Missisipi , fui a New Orleans e vi com meus próprios olhos aquelas construções de origem  francês e holandês, tive contato com aquela paisagem e fico me imaginado , quando pego o livro, como devia ser o mundo naquela vila que descreve o Mark Tawin nos fines do século XIX.
Cortázar no conto "O Perseguidor " fala que uma roupa existe não quando esta guardada mais quando a gente veste ela, Borges fala que o livro cobra vida quando a gente o lê, eu abri este livro quando era adolescente e o reabri agora, de algum modo ele cobrou vida para mim depois de quarenta anos de espera.  Conheci o romance quando estudava na escola de padres salesianos Don Bosco, na Argentina, não consigo entender como a igreja deixou passar esse texto que em alguns passagens ridiculariza aos padres, aos métodos de premiação da evangelização mais tudo bem, na realidade quem lia a narração era um maestro laico que tínhamos no final do primeiro grau (ano 1973 , eu com 12 anos) chamado Luis Carlos Molievi (acredito) .
Ele todos os dias lia trechos e nos encantava com as aventuras do Tom, claro que a gente tinha uma visão um pouco limitada para olhar para aquilo porque o Mark Twain tem muitas sutilezas e entre linhas que nos escapavam.
Num determinado momento do texto por exemplo o autor comenta, como já falei: “Descobrira- uma grande lei que aciona o mundo- sem o saber que o homem possa  cobiçar  uma coisa basta tornar essa coisa difícil de obter”.
Como um garoto, embora pudesse ser conduzido, teria como decifrar tudo o que implica aquela frase com 12 anos?


Cinema

O livro inspirou muitos filmes, quadrinhos mais para mitos o filme de 1938 dirigido por
Norman Taurog  foi o que melhor colocou nas telas o romance.
O filme é leve e bonito, tem grandes atuações mais peca por introduzir cenas, cortar outras e colocar personagens e falar inexistentes no original.

Final

No começo do livro, na dedicatória o Mark Twain publica: “A pesar de que o destino deste livro seja a passatempo de jovens, espero que não o depreciem os adultos, já que em parte está composto com a idéia de despertar lembranças do passado e expor como eles pensavam , sentiam e falavam e em que raras empresas se embarcavam."
O Mark Twain conseguiu seu propósito, claro que o livro nos atinge e na medida em que o lemos voltamos as juras de amor, as mandingas, aos planos majestosos, aos segredos com os amigos, as fugidas de casa e a todo um mundo que se reaviva em cada página, recomendo este romance para iniciar a um pré-adolescente no delicioso caminho da literatura.