domingo, 22 de março de 2015

Amor Eterno

Amor eterno.

No reino de Imbitub governava com sabedoria e justiça  o Sultão Tribusto, ele  tinha uma única filha que estava na idade de casar. Tribusto tinha uma preocupação  clara em relação ao futuro da sua linhagem porque a princesa  Sofia não queria  contrair matrimonio.
Argumentava que  ao se sentir apaixonada ela tinha a sensação de perder a cabeça, dizia que depender de outra pessoa para ser feliz a deixava  fragilizada, não se sentia dona de si, se achava fora do seu eixo , em fim, ela  tinha medo de amar.
O pai, o Sultão Tribusto,  apresentou alguns candidatos importantes  e a princesa até que conheceu algum deles mais na eminência de estreitar a relação a princesa interrompia o namoro e tudo voltava ao ponto inicial.
Relativamente longe dali no reino do Sultão Elibir na antiga Lebanon vivia o príncipe Horacio que  por diferentes motivos também não queria formalizar casamento .
Isto claro que preocupava ao Sultào Elbir porque sua descendência podia esta comprometida assim que em longas conversas tentou induzir ao príncipe a se aproximar de uma donzela com o propósito de contrair matrimonio e perpetuar assim  o seu  reinado.
Horacio sempre argumentava que desconfiava das mulheres, que a infidelidade e a vida oculta eram a essência do feminino e que jamais conheceria uma mulher virtuosa que pudesse fugir desse destino.
Em quanto isso , lá no céu a deusa Isis se apiedou destes dois jovens,  entendeu  a situação e achou que deveria chamar a Cupido para que  ajudasse a  que aqueles dois se encontrassem.
O anjo Cupido, aceitou a missão e  estudou  qual seria o melhor  modo de colocar um no caminho do outro.
A princesa Sofia estava procurando um cozinheiro que pudesse comparecer ao palácio do Sultão na finalidade de cozinhar esfihas para receber uns convidados árabes , tinha localizado o melhor mestre de culinária arábica das  adjacências  e queria  poder contar com o seu talento na recepção.
Enviou uma carta convidando ao cozinheiro do palácio do Sultão Hernio  que morava numa cidade vizinha a Imbitub  e isso chamou  atenção de Cupido que achou que poderia colocar sua colher nessa cena  e, imaginado um plano de  aproximação do casal , interceptou a carta , vinculou ela junto com a correspondência  pessoal que o príncipe Horacio teria que receber na manhã seguinte e se sentou a observar o transcorrer da trama.
O príncipe, de manhã, leu a carta, sem entender muito bem do que se tratava, mas, ainda assim teve a delicadeza de respondê-la com estas palavras: “Estimada princesa, gosto de esfilhas e até gostaria de poder satisfazer seu desejo, mas não é a culinária uma arte com a qual consiga  me entender ainda  com alguma  destreza  , imagino que outros homens com muito mais talento que eu para essas empresas consigam satisfazer seu pedido com melhores resultados, as  suas ordens o príncipe Horacio”.
A princesa Sofia ao receber a resposta de Horacio ficou surpresa não sabendo explicar como aquela carta foi parar na correspondência do palácio do Sultão Elibir, mas achou simpática a réplica do príncipe, então decidiu  explicar-se e  assim escreveu: “ Estimado príncipe Horacio não termino de entender como a minha carta teve um destino tão  caprichoso , imagino que existe um vento  rebelde que desobedece nossas vontades. Será coisa do destino?  Vou refazer o pedido para seu original destinatário e espero que  não tenha  tomado muito de seu tempo com os devaneios deste correio mutável , às suas ordens, a princesa  Sofia”.
O príncipe achou indelicado interromper o dialogo e enviou mais uma carta iniciando uma conversa casual  perguntando sobre o tempo e sobre o céu de Imbitub : “minha estimada princesa,  fora o assunto das esfilhas e das cartas extraviadas queria  lhe comentar que há muito tempo que não vou à sua terra, ainda tem nesta época do ano, aqueles entardeceres rubros,  aquele cheiro de jasmim  inundando o ambiente? São coisas que nos impedem esquecer o futuro , sempre às  suas ordens, príncipe Horacio“.
Cupido a esta altura estava desfrutando desde alguma nuvem porque seu propósito estava encaminhado e pelo andar da carruagem em breve teríamos algo mais do que falar.
A princesa retornou a carta com uma resposta convidativa: “ Meu caro príncipe Horacio: neste momento o meu gato na janela olha as nuvens do céu se desfazendo e parece  entender como todos aqueles desenhos ocasionais produzem formas aleatórias, ora  de cavalos, de montanhas, de mãos ...um dia vou desenhar ele para que sua majestade conheça a beleza da seu contorno  obscuro recortado no  fundo  vermelho  do céu ao cair da tarde  , com carinho, princesa Sofia”.
As cartas se sucederam sempre nesse tom poético e afetuoso, mas, Cupido entendeu que precisava de mais uma apimentada e decidiu introduzir a figura do príncipe no mundo onírico da princesa,  a cena foi à seguinte: Ela tinha pedido para suas escravas pessoais e todas as damas da corte que, por favor, a deixassem sozinha aquela noite no seu quarto, proibiu a entrada de pessoas e pediu para que ninguém interrompesse sua intimidade até o dia seguinte porque ela precisava  ficar só e desejava que  respeitassem aquela solidão.
A princesa tinha o propósito de reler todas as cartas de Horacio e escrever uma outra resposta  incorporando novas imagens e lembranças que teria acumulado ao longo do dia inteiro, o sono  atacou por surpresa e  acabou se entregando aos cuidados do Deus Morfeu.
Durante o sono, uma forma humana se aproximou dos aposentos da princesa e começou a olhar pra ela, primeiro tomou um susto, mas depois escutou uma voz: “sou Horacio, desculpe minha intromissão, estou aqui para te fazer uma visita”.
A imagem de Horacio aos poucos se tornou mais clara e ele sem cerimônias se aproximou da cama e deixou reconhecer seu rosto e seus trajes.
Era um jovem esplendido, de cabelos longos e cacheados, olhos azuis, vestia uma camisa da mesma cor de seus olhos bordada com pássaros dourados na frente e nos ombros tinha ainda enfeites de  um azul mais claro, as mangas terminavam em brocados que chegavam até o final do seus braços, as mãos eram grandes mas  delicadas e tinham um anel vermelho que sobressaía  do seu dedo anular pelo seu colorido e seu brilho , o anel chamava a atenção não pela sua opulência mais pelo seu encanto.
Os dois se olharam, sorriram e sem querer suas bocas se aproximaram em um beijo que acabou detonando uma serie de luzes coloridas e reflexos que eles nunca antes tinham experimentado, as pernas da princesa sucumbiram.
As caricias e os beijos se multiplicaram, as roupas caíram  e o príncipe Horacio olhou a nudez branca da princesa Sofia com desejo e um apetite delicado.   A pele toda despida era apenas interrompida por um amuleto de nácar que pendia da  garganta da ninfa como uma única vestimenta, os corpos  se elevaram no ar  e uma música celestial fez com que os dois flutuassem  embriagados.
O príncipe acariciou os ombros de Sofia  e sentiu a suavidade de um tecido de seda fina , os dois se abraçaram e se uniram até ficarem colados em um só corpo  impregnados de suor e de aromas numa sensação que ficou na memória dos dois pela vida inteira.
Beijaram-se sem pronunciar palavras, apenas sons inatingíveis que só os amantes emitem nas horas intimas.
Repousaram num estado de alegria e de êxtase,  até ficarem  completamente dormidos  sem lembrar da passagem do tempo nem da sua própria existência; no dia seguinte procuraram  entre os lençóis o corpo  amado que já não habitava mais aquele leito.
A princesa olhou sua mão e descobriu o anel vermelho num dos seus dedos,  e o príncipe olhou seu pescoço e viu o amuleto de pedras que tinha observado pendurado no corpo da sua amada.
A princesa acordou atordoada e sem pensar buscou  tinta e papel para escrever para Horacio relatando discretamente o seu sonho , tentando explicar inclusive como teria aparecido aquele anel vermelho na sua mão. O príncipe por sua vez fez o mesmo movimento e, cuidando para que o  seu relato não parecesse um devaneio impudico e tentou descrever a sensações deliciosas da noite anterior e a aparição do amuleto envolta  da sua gola.
Quando as cartas chegaram ao destino, os dois puderam constatar que o sonho  tinha extrapolado os limites do mundo onírico: sentiram calafrios nos seus corpos e uma sensação de que suas vidas foram atravessadas por uma espécie de sortilégio que não conseguiam entender.
 Sofia se sentiu completamente envolvida na relação e isto detonou  antigos medos e  uma  sensação de incômodo que se fazia presente quando ela não conseguia se sentir dona de si.
A resposta foi afastar-se de Horacio, tentar esquecê-lo e procurar se equilibrar para ganhar de novo o comando do seus desejos.
O príncipe ao mesmo tempo sentiu que os dois estavam se aproximando perigosamente e tentou enviar vigias e informantes para o palácio de Sofia com o intuito de saber de perto quais eram os verdadeiros sentimentos dela e assim poder caminhar num  território mais firme.
O resultado foi catastrófico, primeiro a intolerância, depois a agressividade e por último, o afastamento  definitivo sucederam-se, nesta ordem, entre os dois.
Cupido estava perdido e nada conseguia fazer para interromper aqueles receios que impediam que a relação conseguisse se estreitar.
A Princesa  tomou a iniciativa e decidiu desistir  da relação por sentir que as coisas tinham ido longe demais, e que seria mais prudente retomar seu antigo estado de solteirice e  ao controle da
situação.
Comunicou sua decisão ao príncipe e este adoeceu,  triste e sem vontade nem forças para viver o desenlace da relação acabou morrendo de tristeza dias depois  que a princesa o abandonara.
Quando ela soube da morte do príncipe se desesperou e começou a pedir a todos os anjos do céu que devolvesse  Horacio para sua vida, que ela não conseguiria viver sem  ele.
Cupido atendeu sua oração, e pediu para a deusa Isis mãe da vida, deusa do amor e da magia para devolver o príncipe a este nosso mundo.
Ela escutou a prece, mas falou que Sofia deveria passar por três provas para merecer a restituição do seu amante para o mundo dos vivos.
Cupido aceitou o reto da deusa e pediu para ela descrever quais seriam as provas as quais a princesa deveria se submeter. Isis falou: primeiro ela tem que estar numa margem do rio e na contraria ao mesmo tempo. Segunda prova tem que caminhar o longo de uma arvore desde a raiz até a copa e por último tem que entrar no lago dos mortos e trazer o tambor na baqueta sagrada que estão ali desde os tempos remotos.
Cupido entrou no quarto da princesa e tomou uma forma humana para poder falar com ela e para  dissuadi-la de tentar passar pelas três provas que a deusa tinha encomendado para ela se reencontrar com  Horacio.
A princesa estava desconsolada chorando na escuridão do seu quarto quando viu a imagem do Cupido.  Tomou um susto,  mas ele  aos poucos a acalmou e  lhe explicou  quem era e a chance que estava trazendo para ela recuperar  seu amado.
Cupido tentando convence-la  para ganhar forças para passar pelas provas até que ela respondeu:
“Mas  como vou conseguir estar numa margem do rio e em  outra ao mesmo tempo?” , este respondeu:  “essa é fácil,  você se colocará em pé em uma das margens e na outra colocaremos um vidro espelhado que possa refletir sua imagem”.
A princesa aceitou o  desafio e foi até o rio , colocou o vidro espelhado em uma das margens apoiado numa pedra , atravessou para a outra costa , ficou em pé tentando fazer coincidir sua  figura com o reflexo e quando isto aconteceu um grupo de pássaros saíram de uma arvore fazendo um reboliço em claro sinal que a primeira prova estaria cumprida.
Ela começou a caminhar em direção ao palácio, mas Cupido falou ao seu ouvido, vem comigo me acompanha que tem algo que te mostrar, ele a levou até uma arvore que tinha sido derrubada por uma tempestade um tempo atrás e que estava deitada no meio de um vale, indicou pra ela atravessá-la  andando desde a raiz até a copa como tinha sido sugerido pela deusa e quando isto sucedeu novamente um movimento de pássaros deram o sinal que a segunda parte do desafio estaria sendo cumprida.
Faltaria ainda o último e derradeiro desenlace para a princesa reencontrar ao seu amado.
A princesa orientada por Cupido vai até a beira do largo dos mortos e mergulha nele , chega até o fundo e visualiza o tambor e a baqueta sagrada embaixo do tronco de uma arvore que estava submergida,  consegui pegar nos objetos sagrados mas não  teve oxigênio suficiente para  voltar ao mundo real e morre .
Cupido se desespera e vai  pedir a deusa Isis que por favor devolva a vida a Sofia e Horacio mas ela argumentou que embora ela seja  deusa  também do nascimento e da vida que o único que poderia fazer e permitir que os dois se encontrem no Edem e assim seu amor se tornaria eterno.
Cupido aceita a proposta da deusa Isis  e a partir  de então  Sofia e Horacio se encontraram no céu eterno onde vivem felizes até os dias de hoje.






domingo, 1 de março de 2015

historias da princesa Alit Sagach e do príncipe da Pérsia

A historia do pássaro que falava.

"não devemos deixar perpetuar nossas magoas"


Á muito tempo atrás vivia na cidade de  Avitub uma princesa bela e honrada chamada  Alit  Sagach, a sua vida transcorria de modo ameno quando, de repente,  sua tranqüilidade foi interrompida por um fato inesperado,  ela teve um sonho , no mínimo, curioso , nele  aparecia a figura de um ancião que ponderava claramente que ela deveria procurar o pássaro que falava.
No sonho  a voz, inclusive, descrevia  com detalhes como teria que fazer a viagem para conseguir  o que ele indicava; o ancião lhe sugeria que ela percorresse um caminho em direção ao pôr do sol  desde a saída da cidade e andar durante 10 dias em linha reta  até que em um determinado momento,  no meio de um vale,  se toparia com uma árvore  embaixo da qual encontraria um monge que lhe indicaria os últimos passos que ela teria que percorrer para encontrar o tal pássaro.
A princesa Alit Sagach estava acostumada  a sonhos  que tivessem  imagens desordenadas ou  situações que envolvessem pessoas do seu mundo  cotidiano mais este parecia um sonho diferente, a  princesa Alit ficou completamente arrebatada por aquele presságio e pediu para seu séquito que preparassem uma caravana para empreender uma viagem de 10 dias sem  esclarecer para nenhum deles quais seriam  os verdadeiros motivos que impulsionaram a ação.
Dos dias depois de tomada a decisão saiu das portas da cidade a princesa Alit, 10 escravas, 20 eunucos negros, 12 soldados da guarda imperial, algumas pessoas que faziam parte da corte como conselheiros, astrônomos,  mais de 40 camelos e dois falcões.
Durante os primeiros dias uma tormenta de areia no deserto produziu  infinitas perdas aos viajantes e tiveram que se livrar dos acervos de água e alimentos, no quinto dia a carreta foi assaltada por um grupo de violentos ladrões  que roubaram pertences, deixaram quase sem provisões ao grupo, mataram todos os homens e ainda levaram todos os camelos,  na oitava jornada uma peste  atacou as mulheres e produziu um surto de febre coletiva que fez com que fosse impossível prosseguir  a viagem com o grupo, a  princesa um tanto  impulsionada pela força da sua determinação continuou andando e acabou chegando sozinha ao final do trajeto  com tudo o que isso implicava de risco e de coragem.
No derradeiro  trecho da caminhada, num lindo dia de  outono,  finalmente  encontrou o vale , a árvore  e o velho monge sentado  no lugar como tinha sido indicado no presságio,  se apresentou e explicou para ele  que tinha tido um sonho onde ela foi avisada que encontraria  uma pessoa  embaixo de uma árvore e que esta  pessoa lhe daria as coordenadas sobre  o que fazer para encontrar o pássaro falante.
O monge  se reconheceu na historia e falou que o pássaro na realidade era o príncipe da Pérsia que tinha sofrido um feitiço e que estava preso no corpo de uma ave que habitava uma árvore branca que ficava  no alto da montanha.
Falou que uma mula indicaria o caminho até a vera da subida e que depois ela teria que prosseguir sozinha para descer com o pássaro o libera-lo do sortilégio e unir seu destino ao dele.
A princesa, ainda meio entorpecida pelos percursos da viagem e pelo encontro com o ancião, olhou para os lados e deu de cara com a mula , ela e o animal se  colocaram frente a frente como se estivessem se entendendo....a  mula começou  a andar em direção de uma passagem que dava para o inicio da montanha, então a princesa a seguiu  e em determinado ponto, embaixo de uma ladeira íngreme a mula  afasto-se como que indicando que a partir de ali a princesa Alit deveria seguir sozinha o seu caminho.
A princesa subiu a encrespada ladeira e quando esteva na cúspide encontrou finalmente  a arvore branca e ali mesmo estava o pássaro que falava.
O encontro dos dois foi algo muito belo, apenas se descobrindo no começo  mas já sabendo já que teriam toda uma historia pela frente  que estava se iniciando em aquele instante com aqueles primeiros olhares.
O pássaro falou com ela: Olá , você sabe quem eu sou?
Ela: Sim, o príncipe da Pérsia que por culpa de uma magia estás num corpo de pássaro.
Ele: Sim, exatamente, nunca antes tinha visto uma mulher tão bonita  como sua majestade.
Ela: obrigado, sou a princesa Alit moro  na cidade de  Avitub há 10 dias daqui, teve um sonho e vim para  resgata-lo.
Vamos sair daqui então, falou ele, me leva contigo por favor.
A princesa e o pássaro desceram da montanha e a mula que estava aguardando os guiou até a árvore onde já não tinha mais o monge (tal vez porque seu propósito no mundo tivesse chegado ao fim).
Os dois voltaram sozinhos até a cidade e já no palácio foram recebidos com muito carinho e preocupação por todo o pessoal da corte que não tinham noticias a mais de 20 dias.
A princesa Alit, contou as penúrias da viagem e como conseguiu se superar para voltar com o pássaro falante  e cumprir a sua missão .
Fizeram todas as cerimônias fúnebres para despedir-se de todas as pessoas mortas que tinham participado da caravana e depois de quatro dias de luto oficial a cidade começou a retomar seu ritmo normal.
A princesa levou o pássaro para morar no seu próprio aposento e depois de se reabastecer durante alguns dias pela extenuante viagem que sofreram, pássaro e princesa começaram a conviver em paz como se fossem velhos amigos.
Comiam juntos, comentavam assuntos sobre suas vidas íntimas até que cada um começou a  mostrar seus humores e sua forma de ser .
A princesa não sabia a quem recorrer para poder tirar o feitiço do príncipe e transformá-lo de novo em homem mas por enquanto conviviam juntos ele como pássaro e ela como donzela aprendendo a  gostar um do outro.
Ela era doce e ao mesmo tempo tinha um temperamento violento, contava com toda a paciência e amabilidade do mundo com todos mas preservava uma sala de tortura no porão do palácio onde castigava cruelmente aos que teimassem, então ela dizia : faço isto para ver se  entendem de uma vez!
O príncipe da Pérsia era de um espírito jocoso , burlesco, brincalhão ...uma manhã ele, escondido detrás de uma folhagem,  imitou uma voz rouca e se fez passar por um asno que passava , então a princesa por um instante pensou que o asno falava com ela...momentos depois ele cometeu uma gafe , foi descoberto  despertando a fúria dela e a vontade de castigá-lo.
O episodio foi esquecido mas a princesa guardou mágoa e rancor por conta de se sentir burlada pelo príncipe.
Meses depois ele escondido detrás de um cortina do no quarto, impostando uma voz diferente  a fez  acreditar  que estivesse escutando uma mensagem do alem então , ela conversou durante longo tempo com o  que parecia um duende ou uma assombração.
A princesa  acreditou na presença de um espectro e discorreu com ele durante longas horas, então ele aos poucos foi ganhando a confiança dela e foi induzindo a acreditar que fosse um amante fantasma que a estava seduzindo. Quando ela descobriu o engano ficou furiosa e perseguiu ao pássaro pelo palácio inteiro para lhe dar uma surra.
O pássaro esteve de castigo durante uma longa quarentena e a princesa sem saber como lidar com aquele personagem querido e  detestado  , ao mesmo tempo, continuou o perdoando e acumulando aversão aos disfarces e a esse lado trapaceiro que tinha o príncipe da Pérsia  .
Os ânimos se acalmaram, a princesa Alit  Sagach e o pássaro passaram a conviver em harmonia e ternura.
Ele cantava pra ela e todos os pássaros da região acudiam a escutar os trinos musicais do príncipe que começava no por do sol e continuava pela noite adentro alegrando os jardins do palácio como se fosse um aroma suave que impregnasse de beleza todo o ambiente.
A vida continuava  normalmente no palácio até que um touro falador entrou em cena; não se sabe de onde surgiu mais conseguiu entrar no palácio, colocar a cabeça na janela do quarto da princesa e se dirigindo a ela lhe propôs amizade.
A princesa aceitou, embora sempre com reservas, a relação de afeição com o touro  foi ganhando intimidade até que no primeiro desentendimento ela achou que se tratava de novo de um outro truque do pássaro e lembrando de todo seu ódio acumulado partiu pra cima dele com uma faca na mão para matar ao príncipe e dar um ponto final em suas iniquidades .
Primeiro final.
A princesa irada o cercou e acabou acertando o coração da ave com a ponta fina de um punhal, brotando sangue do peito do pássaro e na hora seu corpo mudou para o do príncipe aparecendo, de repente, na sua frente, a figura esbelta de um jovem angelical.
O príncipe da Pérsia se contorceu todo e acabou morrendo na frente da princesa com as duas mãos no peito segurando o punhal assassino que tinha acabado com sua vida.
A princesa  afastou-se da cena do crime e acabou se amaldiçoando quando o touro apareceu comentando o ocorrido.
Tarde demais Alit  Sagach descobriu que  o pássaro tinha sido trucidado por engano.
De algum modo a profecia do monge se realizou e os seus destinos se uniram. Ela se desfez do touro e deu uma solene cerimônia de despedida ao amado pássaro-príncipe sempre suspeito e eternamente lembrado na memoria da princesa.
Um tumulo e uma esfinge com a figura de um  príncipe alado foi construída nos jardins do palácio e a historia do pássaro que falava foi uma das mais lembradas até hoje por todos os habitantes da cidade  de  Avitub.
Segundo Final.
Deteve-se a tempo de não cometer um ato definitivo do qual poderia  arrepender-se respirou fundo, de um passo atrás, expulsou ao touro dos jardins do palácio e deixou ao pássaro numa gaiola isolado durante três semanas de castigo ainda sem saber identificar se o episódio foi real ou fictício.
O tempo que sempre é generoso com nosso passado, acabou dissolvendo a magoa e com passar dos dias o ressentimento deu lugar as saudades; a princesa Alit lembrou dos momentos prósperos, das canções que o pássaro-príncipe cantava pra ela, das tantas luas diáfanas que os iluminaram; não o absolveu pela  perversidades que cometeu  mais sim  pelos atos suspeitos dos quais fora incriminado.  Como gesto de reconciliação a princesa  Alit tirou o pássaro da gaiola o beijou e de repente, frente a seus olhos, a ave se converteu na figura esbelta do príncipe da Síria, , reinaram felizes no palácio conquistando a alegria grata e silenciosa da qual usufruem os seres que se amam quando unem seus destinos.










sábado, 24 de janeiro de 2015

A historia do principe Agib

As mil e uma noites.

“Os  séculos passam e a gente continua escutando a voz de Schabrázád”
                                                                                                                                                                                                        J.L.Borges.

Sempre regressando ao livro como uma fonte inesgotável de sonhos e de inspiração, sempre volto ao assunto de que o tipo de narrativa das “mil e uma noites”parece pertencer a  um estilo feito para ser contado oralmente, nada parecido com a prosa atual... Como algo que sugere outro mundo ou  outro modo de viver no mundo.
Em relação às formas narrativas que aparecem nas “mil e uma noites”, parece que estamos na frente de aquelas bonecas russas (Matryoshka) onde uma boneca se encaixa dentro da outra porque de um relato se bifurcam seis contos e dentro de cada um deles teremos pelo menos mais três outros relatos inerentes parecendo  com aqueles corredores, meio labirintos que encontramos nos becos e nas ruelas dos países árabes.
Queria comentar um dos contos que re-descobri... O encontrei numa recopilação feita por Jorge Luis Borges  publicada na Argentina  em um dos volumes ( o numero 52) do que se chamou a “Biblioteca pessoal de Borges”...a seleção dos contos para esta edição foi feita por A.Gallard.
Vou me referir a um conto inserido em uma narração maior chamada de “Historia dos três calendas, filhos de reis e das cinco damas de Bagdá” (calendas podemos traduzir aqui por monges...), dentro deste teremos então a história, da qual vamos falar chamada “Historia do terceiro calenda, filho do rei”.

O conto em si...

O príncipe Agib ,o protagonista do conto, naufraga na ilha da montanha negra,  a ilha do grande imã e da estatua de bronze,  adormece na areia e escuta durante um sonho uma voz que o orienta a  liberar ao gênero humano dos males que o ameaçam atirando flechas, que estão enterradas muito perto de onde ele deitava, contra uma estatua de bronze que reinava na cima da montanha...Agib  acorda, obedece a voz , atira contra a estatua de bronze libera ao mundo e na fuga (depois de muitos dias de caminhadas) acha a um jovem príncipe escondido em uma caverna subterrânea, este confessa que existia um premonição dita por astrólogos antes do seu nascimento na qual no dia do seu aniversario de quinze anos (que justamente seria nessa mesma noite) um príncipe chamado Agib, que tinha vencido a estatua de bronze o mataria.
O presságio se cumpre, Agib acidentalmente mata ao jovem ao querer se aproximar e tropeçar sobre ele em quanto oferece uma fruta (pelo destino segurava uma faca na outra mão), depois da fatalidade foge, continua seu percurso até olhar uma luz resplandecente que o atrai, era um castelo de cobre...

A parte do conto que nos interessa falar.

  Agib  encontra a 10 jovens, todos tortos do olho direito, acompanhados de um ancião de alta estatura, conta pra eles sua vida e eles oferecem um jantar ...bebem, comem e depois do jantar Agib presencia uma cena , no mínimo curiosa, os 10  jovens  (sem olho) se auto punem batendo no peito e repetindo a frase, “ Este é o fruto de nossa ociosidade e de nosso desordem”.
Agib ao cabo de alguns dias de presenciar este espetáculo não se conteve e pediu para que seja revelado o segredo de esta conduta, um dos jovens comentou que nada falaram para não expor ele a sofrer o mesmo mal.
Eles  inclusive advertiram ao Agib que depois de perder o olho direito não poderia ficar com eles porque já teriam alcançado um numero completo.
Agib sem se importar com nada respondeu com firmeza, “me submeto a todas as condições”.
Atendendo ao inquebrantável da decisão os jovens pegaram um carneiro, o degolaram e deram a faca ao Agib falando, “se envolve na pele deste carneiro, fica sozinho neste cômodo, um pássaro enorme entrará aqui e ao acreditar que sois um carneiro te arrebatará no espaço, mais não tenhas medo, ele vai te levar para a cima de uma montanha, lá rompe a pele do carneiro e ele ao te reconhecer te deixará em liberdade, caminha até chegar a um castelo imenso coberto de ouro de pedras preciosas, a porta estará sempre aberta, entra e o que vereis os custará o olho direito como aconteceu com nos”.
Tudo aconteceu como os jovens falaram, o pássaro branco o levou até a montanha, achou o castelo entrou e encontrou noventa e nove portas de sândalo e uma de ouro maciço.
Todas as portas conduziam a jardins e a quartos com moveis magníficos... Entrou numa das portas abertas e viu dentro de um salão a quarenta jovens lindíssimas que o receberam com muita alegria.
“Há tempo que esperamos por um homem formoso como você, somos tuas escravas estamos dispostas a te obedecer no que você deseje”.
Uma delas colocou uma roupa extraordinária nele e o presenteou com perfumes, danças e manjares deliciosos.
O levaram até seu aposento e ele levou consigo aquela que tinha falado em nome de todas, transcorrida a noite as outras trinta e nove entraram no seu quarto e o conduziram até o banho, trocaram as roupas por outras mais impressionantes que as da véspera e assim, de este modo, viveram  um ano inteiro.
Um dia, as doncelas, entraram no seu quarto chorando e falaram que possivelmente não os veriam mais e  que isto dependia do domínio que ele teria de si mesmo.
Elas falaram que são princesas e que ao cabo de um ano são obrigadas a ausentar-se durante quarenta dias devido a certos assuntos que não podiam revelar.
Elas falaram “o ano terminou ontem, antes de sair deixamos com você todas as chaves do palácio, mais recomendamos não abrir a porta de ouro, pois do contrario no voltaria a encontrar-las”.
Agib prometeu obedecê-las e despediriam com lágrimas nos olhos.
A solidão foi imensa mais Agib se distraiu abrindo as portas permitidas descobrindo em cada uma delas um jardim maravilhoso, árvores frutais, flores surpreendentes, em fim, uma surpresa a cada um dos trinta e nove dias que se sucederam.
Até que no ultimo dia , no dia numero trinta e nove a curiosidade venceu e Agib abriu a porta do sitio proibido, no começo sentiu um sinal, um aroma agradável que tirou a razão e quase o fez desmaiar.
O ambiente estava iluminado por mil bugias e o chão coberto de açafrão, no meio de um pátio tinha um cavalo preto imponente, dos mais belos e raros que ele jamais tinha visto.
Montou ele e o cavalo o levou pelo espaço subindo e descendo a grande velocidade até jogar-lo contra o chão. O cavalo se aproximou encosto o rabo no seu rosto e arrancou o olho direito saindo de cena imediatamente.
Agib dolorido pela perda do olho saiu do salão proibido e encontrou aos dez jovens e ao ancião que não se surpreenderam com aquela triste situação.

Reflexões.

Interessante destacar como a narração brinca com o tempo, por um lado esta narração fabulosa transcorre em um ano e por outro lado parece que tudo apenas aconteceu em uns instantes.
Tempos paralelos, algo com o qual brinca também Cortazar no conto “O Perseguidor”.
O tema em questão é como o ser humano se atrai por aquilo que  é proibido... Como o homem a partir de aquilo que chamamos de curiosidade é instigado, provocado por aquilo que lê esta interditado ao ponto de não resistir a tentação e bater na porta justamente de aquilo que lê foi oculto, que será a causa da sua desgraça e da punição pela sua imprudência.
O tema , como o ser humano desde Adão e Eva vem repetindo desacertos a partir de escolhas que apenas obedecem a sua leviandade e a sua falta de compostura.
Deixo com vocês este conto inesquecível.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A grande Arvore.
                                                        “adonde van los pájaros perdidos”.
                                                                                                                                Mario Trejo

Nos anos de 1500 (acredito eu) no estado de Anarap , numa aldeia chamada Iavi,  não muito perto  da  barulhenta cidade  de  Abitiruc , morava uma linda moça que  durante as tardes  sabia frequentar um  esplêndido vale.
Estando naquele prado de ervas e de pássaros silvestres aliviava seu coração e se entregava a descansar placidamente recostada num único arvore colossal que reinava soberano naquele vazio de aromas e de prazeres singelos.
A tarde serena foi testemunha das duas presenças; ela bela, sorridente, plena e ao seu lado uma arvore frondosa, verde, viva que imperava intensa no centro daquele paraíso inabitado.
Durante anos e anos ela descia ao vale sozinha para se recostar feliz na sombra daquela arvore generosa e assim contemplar distraída  o decair da tarde ...ocorreu deste modo durante muito tempo até que um dia , um entre tantos outros, ela escuta uma voz  saindo do nada, uma voz límpida tentando falar com ela... Olha para todos os lados, não tinha ninguém mais que ela e a arvore na vastidão daquele horizonte... a sua primeira reação foi de medo  e de assombro.
A voz a chamou pelo seu nome, “Edeila!”, Perguntou uma vez, “Edeila!” Perguntou duas, a terceira ela respondeu, “quem é você? Porque não aparece para que eu possa perder o susto que estou sentindo e poder te responder? Como sabe meu nome?”.
A voz falou, “sou a própria alma da arvore que tantas vezes te acolheu”... Ela surpresa frente ao fenômeno que se apresentava ficou emudecida numa mistura de assombro e de receio...
“Vou me apresentar, mais antes (prosseguiu a Arvore), olha detrás de ti, tenta achar uma argola”, ela olhou entre as raízes da magnífica arvore e encontra uma argola de metal pesado que nunca tinha estado ai nesse tempo todo.
“Encontrei ela (diz Edeila) e agora que tenho que fazer?”
A grande Arvore respondeu, “puxa da argola e entra no palácio”... Edeila puxou da argola e imediatamente  se abriu uma tampa de madeira maciça que introduzia para o inicio de uma escada, Edeila desceu os degraus quando seus olhos assistiram a um espetáculo que ela nunca tinha visto na sua vida.
Edeila se viu numa casa real, que não parecia ter sido edificada pelas mãos humanas, a casa na realidade era um palácio tão opulento e magnífico como jamais ela poderia ter imaginado, o teto era de madeira de cedro e de marfim maravilhosamente esculpido com detalhes em ouro puro, nas paredes mosaicos com desenhos de animais em prata e pedras preciosas, o piso de um mármore imaculado.  A beleza arrebatadora do palácio deixou a Edeila sem saber por onde começar a apreciar porque a cada momento surgiam mais e mais imagens majestosas, o ambiente parecia brilhar pelo resplendor que surgia do ouro, da prata e da luminosidade das pedras.
Com um pouco de ousadia entrou  no umbral do palácio até que familiarizada aos poucos com a vastidão dos corredores e dos tesouros que ai se encontrava foi se sentindo mais confiante até que, em um determinado momento, o silencio foi interrompido por uma voz sem corpo que diz,
«¿Por que te espantas, com tantas riquezas? , (a Arvore continua), “estou aqui para que me conheças e ao mesmo tempo para tentar retribuir à companhia que me faz todas as tardes te presenteando com a realização de um pedido”.  Edielc voltando em sim, sem especular entre escolhas de tesouros ou de outra natureza responde de forma categórica, “meu pedido? quero conhecer um homem especial!”.
A Arvore falou “para isso preciso que você declare voto de fidelidade, de carinho e que me prometa que vai ser leal até o final com ele para assim eu poder te colocar este homem do teu lado”.
 Edeila aceito o acordo com a Arvore e acolheu o voto de manter de fidelidade e as mostras de afeição se de verdade fosse colocado na sua vida um homem realmente especial.
A Arvore respondeu “ele vai te conhecer acidentalmente e aos poucos vai tentar se aproximar, aceita ele num primeiro momento, se afasta depois e me conta”.
A Arvore pareceu se dirigir a algumas pessoas do seu serviço no palácio e ordenou, por favor, preparem duas aves nobres para o jantar mais só serve quando eu te indicar.

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Dias depois ela voltou a se comunicar com a Arvore, abriu novamente a porta da argola, entrou de novo no palácio e falou ao esmo “ele me encontro, quis se aproximar de forma um pouco impudica mais depois conseguimos nos achegar melhor, penso que as alternativas são favoráveis”..
A Arvore falou “Ele agora vai resistir teu amor mais você aos poucos vai conquistar o amor dele”.
Ela falou, “vou amar ele e mostrar que podemos ser felizes, estou certa de que vamos ficar juntos”.
Os dias passaram, o vale estava lindo, nele pássaros raros mostravam seus trinos ao céu, as cigarras realizavam um coral de sons díspares, as nuances de verdes aqueciam  um cenário esplêndido donde tudo era alegria e onde flutuava no ar a voz íntima de Edeila murmurando no ouvido do seu amado, “sente...me sentes? sou tua meu Amor, sou  toda tua”.
Assim  Edeila seu homem especial passaram dias e noites felizes se amando apaixonadamente, escutando musicas fabulosas, olhando divinas imagens, se enchendo de carinhos e de beijos embaixo dos cuidados do Deus Cupido, até que meses depois do primeiro encontro a nuvem negra da dúvida  e do desejo cobiçoso sepultou sua flecha envenenada no  coração  dela e a partir desse momento começou a ser vivida uma realidade algo diferente ... passaram semanas de desconforto e Edeila apresentou-se ante a grande Arvore  falando, “Oh, grande Arvore queria te confessar algo, não sei o que esta acontecendo comigo mais estou confusa, acho que estou com medo de amar”.
A Arvore respondeu, “para de ser medrosa, o amor só se dá nas pessoas que tem a coragem deixa o tempo decidir o teu destino, nada teme”.
Ela respondeu , “não consigo, sinto que fico muito amedrontada tenho medo de perder-lo”.
A Arvore diz, “mais não estamos ante a iminência de um epílogo, de onde surge isto agora?”.
Ela respondeu, “Sabe, ele mora longe, é muito diferente de mim e inclusive tem outras coisas”.
“ Você sabia disso desde o começo ademais que more longe,   não é  um impedimento para o amor,  em relação a que são desiguais, posso te segurar que as diferenças alimentam o universo individual das pessoas, mais, me conta quais são as outras coisas que estão te fazendo  sentir vontade de deixá-lo ?” perguntou a Arvore.
“Ele usa mascaras e disfarces” ela respondeu.
A Arvore diz, “pode ser que queira te colocar a prova ou que queira obter alguma informação que seguramente você não iria a confessar por própria iniciativa, no essencial ele foi integro e sincero com você”.
“Sim ele foi mais sabe, ele falou pra mim que se eu quiser posso ir embora, o achei rude” diz Edeila
A grande Arvore respondeu, “pode ser que ele se sinta ameaçado e queira desfazer uma chantagem com essa resposta”.
Primeiro Final 
Ela , perguntou de novo, me fala Grande Arvore ele me convidou para um encontro derradeiro, que debo fazer?
A Grande Arvore respondeu, "teu coração manda". 
Edeila falou "vou dar uma chance pra esse moço, gosto dele".
Nesse preciso momento, as luzes ascenderam a grande Arvore fez um sinal para seus mordomos servirem um jantar para três agora, o Homem Especial entrou na Grande Arvore. e sentou na mesa,
A linda moça parece ter acordado de uns instantes de sonolência na primeira tarde que conheceu a grande Arvore do vale.
Segundo Final 
Ela , usando um tom distante  falou por última vez “para mim morreu, eu quero esquecer-lo, seduzir outros homens, quero paquerar, quero que  me esqueça...Le falo mais , por mim,  se for preciso que leve até choque para ver se  acorda ..quero que me deixe em paz, que abra os olhos ...Ficou claro?”.

Nesse preciso momento, as luzes se apagaram, a grande Arvore fez um sinal para seus mordomos servirem o jantar apenas pra ele, o palácio desapareceu e a linda moça parecia ter acordado de uns instantes de sonolência na primeira tarde que conheceu a grande Arvore do vale. 


Roberto Rutigliano, verão de 2015

sábado, 3 de janeiro de 2015

Borges e o jardim das sendas que se bifurcam

O jardim das sendas que se bifurcam


Publicada em 1944 dentro do livro intitulado Ficções a obra tem um prólogo do próprio Borges onde comenta, “el jardin de los senderos que se bifurcan” É um policial, seus leitores poderão assistir a uma execução e a todos os preliminares de um crime do qual não ignoram o propósito mais nada poderão compreender , eu acho, até o último parágrafo .
O argumento
No conto encontramos a um Borges filosófico que coloca questões relativas ao tempo dentro de um contexto de romance policial (como ele mesmo citou) ou se preferem de um conto de suspense e espionagem onde parece que tudo esteja determinado como em uma espécie de destino fatal do qual ninguém pode sair.
Primeiro Relato
 Yu Tsun, espião oriental ao serviço dos alemães durante a primeira guerra mundial, foi descoberto pelo seu rival, o capitão inglês Richard Madden.
Yu Tsun foge para tentar fazer chegar ao seu chefe em Berlin o seu ultimo serviço de espião, revelar o nome do lugar onde se encontra o novo parque de artilharia britânico sobre o Ancre.
Para tentar transmitir a informação Yu Tsun viaja, desde Londres a um lugar perto de Ashgrove, na casa do doutor Stephen Albert.
A escolha da visita tem algo de acaso mais a ideia seria matar a Stephen Albert para que o seu nome, que coincide com o nome do lugar onde fica a artilharia, seja publicado nos jornais e assim o seu chefe em Berlim possa receber a informação publicada a partir de um acordo de códigos que eles tinham prefixado.
Segundo Relato
Yu Tsun tinha escolhido ao acaso, na guia telefônica o nome de Stephen Albert para cumprir sua missão mais quando chega a casa dele para executá-lo descobre que, Stephen Albert ha dedicado sua vida a descobrir o misterioso sentido de uma obra genial de T’sui Pên , antepassado do próprio  Yu Tsun ,“O jardim das sendas que se bifurcam”  que consta de um romance e de um labirinto. Albert (um erudito) lê revela ao Yu o fim de seus avanços sobre o romance e o labirinto, comenta como o livro que seu antepassado escreveu ficou incompreendido por conta do desconhecimento de uma clave (sugerida pelo labirinto) .
Yu Tsun, ameaçado pelo seu carrasco e decidido a cumprir a sua missão mata a Stephen Albert,  o crime ganha a esperada notoriedade , consegue ser publicado e assim transmitir a mensagem para os alemães que com a informação em mãos destroem o parque da artilharia inglesa.
O verdugo de Yu Tsun, o capitão Richard Madden finalmente prende ao espião assassino e o romance chega ao fim.

Algumas questões ligadas ao tempo
Numa determinada ocasião Yu Tsun refletiu sobre a determinação de realizar o ato atroz que teria que cumprir e diz, “O executor de una empresa atroz deve imaginar um porvir que seja irrevogável como o passado”. Aqui temos três momentos: passado-presente-futuro, que o protagonista, Yu Tsun, há de viver. Borges coloca na consciência presente do personagem o futuro como um passado sem volta. O futuro como algo irrevogável ou fatal.
A segunda questão que podemos citar é quando o Stephen Albert (o erudito) descreve a obra de T 'sui Pên ao Yu Tsun, o autor teria se retirado da suas ocupações e depois de 13 anos para escrever um livro que ninguém entende e constrói um labirinto que ninguém vê.
Se descobre que o labirinto é apenas uma clave, algo imaterial ligado a uma noção de tempos que se bifurcam e assim a obra seria elucidada a partir de um caos narrativo aparente que incorpora possíveis encontros ou possibilidades que possam se dar na vida de uma pessoa.
 Num relato normal uma pessoa pode brigar, viajar, morrer, ir ou não para algum lugar , agora pensemos que todas estas chances possam acontecer no texto, que não se eliminem entre sim. Pensemos a partir deste conceito de probabilidades múltiplas do tempo  e que isto seja a chave para ler um romance  reproduzindo a multiplicidade e não um seqüência dos fatos .
Aqui Borges esta encarando uma discussão filosófica para falar sobre o tempo como algo não linear, não como algo uniforme e absoluto ( como o pensavam Newton e Schopenhauer ) se refere ao labirinto imaterial criado pelo T 'sui Pên nestes termos “ Pensei num labirinto , em um sinuoso labirinto crescente que abarca o passado e o porvir”.
Agora vou citar um trecho do livro para colocar melhor a questão, “Acreditava em infinitas series de tempos, em uma rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam se bifurcam , se cortam ou  secularmente se ignoram, abarca todas as possibilidades. Não existimos na maioria destes tempos, em alguns existe você e não eu; em outros eu, mais não você; em outros , os dois.
Em este, que um favorável azar me depara, você há chegado à minha casa; em outro, você ao atravessar o jardim, me encontrou morto; em outro eu pronuncio estas mesmas palavras, mais sou um erro, um fantasma”.
Vemos como essa idéia de labirinto esta orientando uma possível narração onde podem entrar muitas opções ou desenlaces de um fato, daí a incompreensão do texto do T 'sui Pên.
Como vemos em todas as ficções cada vez que um homem se enfrenta com diversas alternativas, opta por uma e eliminam as outras, na do  T 'sui Pên, opta simultaneamente por todas. Cria assim diversos porvir, diversos tempos que também proliferam e se bifurcam.

A frase final, guardada no manuscrito original do T 'sui Pên  define também esta perspectiva , “deixou aos porvir (não a todos) meu jardim de sendas que se bifurcam”.
Muitos estudiosos e filosofos como Fucault e Delleuze ficaram impactados pelo relato de Borges e dedicaram estudos e textos que sem ser definitivos alimentam essa perspectiva circular que o autor propõe com a idéia dos labirintos.
“El jardin de los senderos que se bifurcan” , uma obra magnifica.


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Borges,homem da esquina rosada.

Homem da esquina rosada

Borges tinha algumas obsessões....os tigres, os labirintos, o conto das mil e uma noites, o tempo, o mundo do tango... deste ultimo tema surgem poemas ( o Tango, ”uma mitologia de punhais  lentamente se anula no esquecimento”), letras de músicas  (“Me lembro foi em Balvanera , em uma noite passada, que alguém deixou cair o nome de um tal Jacinto Chiclana”) e este conto magnífico.
Nele se conta uma historia ambientada numa  espécie de Far West argentino, um mundo de “compadritos” (malandros) que vivem se desafiando a ponta de faca sem motivos aparentes só pelo desafio mesmo , no final  para provar quem é o homem mais valente que o outro.
Francisco Real diz  para o desafiado ,“Andam por aí uns loroteiros dizendo que nestas paragens há um, que chamam de Pegador, que tem fama de riscar a faca e de durão. Quero encontrá-lo pra que me ensine, a mim que sou ninguém, o que é um homem de coragem de se ver”.
O tom.
Borges nunca escreve em linguagem coloquial mais neste caso ele se aventura a incorporar palavras e gestos do baixo mundo, dos prostíbulos e dos ambientes marginais de um Buenos Aires suburbano de começo de século XX, em espanhol, “guacha”, “pendejo” (“vagabunda”, “pentelho”)  são expressões que realmente não fazem parte do  vocabulário sofisticado e erudito do autor, mais neste caso respondem a uma lógica , servem  fortalecem o retrato da realidade do lugar,  algo que Cortazar dizia : ‘tem coisas que  tem que ser ditas com as palavras que precisam serem ditas, do contrario ou nada se diz ou não se expressa aquilo que tem ser se expressar’.
A historia.
Um homem é chamado a lutar para medir forças  com um outro  desconhecido, desiste da luta e o vencedor acaba sendo morto por um espectador insignificante (o narrador) que termina sendo o próprio herói do conto.
O ambiente e os personagens.
Parece que o grande assunto do conto é retratar o ambiente, fazer uma pintura da época, o salão de Julia (um bordel),  retratar aos personagens que alimentam a atmosfera,  Francisco Real, apodado O Corralero o desafiante , Rosendo Juárez, conhecido como O Pegador, o desafiado, o narrador central (um jovem insignificante), A Lujanera (uma mulher bela e cobiçada), um músico cego, a lua, o rio, as roupas, os chapéus, o linguajar .
Homem da esquina rosada
O narrador é o homem da esquina rosada, assim como acontece com o personagem central do livro de Dostoievski “memórias do subsolo” ,estamos frente a um personagem sem nome e com rasgos de uma existência insignificante, um homem ressentido de sua pequenez e do seu lugar secundário no mundo, num momento ele fala “como se nem pra catar bugigangas a gente prestasse”.
Mais este personagem miúdo acaba por obra de sua indignação de ver ao seu herói, Rosendo Juárez, humilhado,de ver a La Lujanera , a mulher que todos desejavam nos braços de um forasteiro , toma coragem mata ao desafiante e fica com a Lujanera se transformando assim de um infeliz em num herói ,” Senti depois que quanto mais aporrinhado o bairro, maior a obrigação de ser bravo”. 
Borges diz
 Há quarenta anos cometi a imprudência de escrever um conto titulado O homem da esquina rosada, o tema é este , um desconhecido chega a um bairro longe do seu, um bairro perdido no oeste de Buenos Aires e desafia a outro a duelar com ele.Agora quando escrevi esse conto tive um propósito visual inspirado nos contos de Stevenson e de Chesterton. Pensei que seria curioso aplicar a matéria prima marginal a uma técnica, uma técnica que quer que cada cena tenha a sensação de ser vivida, quero dizer que todas as coisas ocorram como num ballet, (inclusive há pouco tempo se fez um ballet com o argumento do homem da esquina rosada) Agora no conto , precisava que a provocação fosse brusca. E assim O Corralero entra no salão do baile e provoca bruscamente ao líder local que se chama acredito Rosendo Suaréz

O Filme

Existe algins filmes, peças, ballet mais o filme mais consagrado é de 1962 dirigido por René Mugica, o autor muda o roteiro e inclui um motivo para a provocação da briga e um contexto histórico maior.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Criatividade e imaginação no George Wellls

O viageiro a traves do tempo e o Homem invisível

Viajar no tempo e se tornar invisível são temas que alimentam a imaginação do mundo, temas que, de algum modo, relacionam ao homem com a ruptura e a linearidade da existência.
O próprio autor comenta, “toda sociedade tem que mudar aquela que não muda esta morta”.

O viageiro a traves do tempo

Para a religião e para a política a arte deveria servir interesses não apenas estéticos.
A religião pensa que ela teria que estar inspirada em motivos sagrados e para a política a arte teria que ser necessariamente uma ferramenta para o desenvolvimento ou para a divulgação dos ideais.
Alguns artistas, pelo seu lado defendem uma arte que apenas de conta de valores estéticos embora exista a possibilidade de que a obra tenha também um valor didático.
No caso da narração de Wellls,  ele consegue  realizar uma arte apenas com finalidades estéticas (uma mera aventura fantástica) e ao mesmo tempo constrói uma metáfora de um futuro provável da humanidade fazendo um paralelo com a luta de classes.
O romance lembra ao Jonathan Swift  que já em mediados de 1600 escrevia “As viagens de Gulliver” , uma aventura aparentemente infantil mais que constitui uma das criticas mais amargas que se escreveram contra a sociedade e a condição humana.
George Wells, britânico de nascimento é considerado junto ao Julio Verne um dos precursores do romance de ciência ficção.
Borges falaria que o fantástico em Wells é de caráter científico e nunca sobrenatural e que a diferencia com Julio Verne consiste em que este constrói realidades proféticas e o Wells caminha na ordem de visões de execução impossível.  

O romance
No final do século XIX um cientista convida aos seus amigos para mostrar suas experiências com a “quarta dimensão” (o Tempo)
Conta pra eles como construiu uma máquina com a qual conseguiu viajar até o ano de  802.701,  conhece assim uma sociedade habitada por dois tipos de humanos, os “ Eloi” que vivem na superfície da terra e que aparentemente tem todos o que desejam e os “Morlocks” que vivem nas sombras.
Com esta imagem parece querer nos convidar a refletir sobre as deformações que podem acontecer no desenvolvimento da ordem estabelecida e como a desigualdade pode criar contradições capazes de ameaçar o convívio e a paz social, em outras palavras a polarização social como algo fatal gerado pelo próprio sistema.
Voltando com a historia, a máquina do tempo que o transportava foi roubada pelos Morlocks e o protagonista se vê obrigado a conviver naquele mundo, sem conhecer a língua,, nem os perigos do lugar, consegue sobreviver durante seu convívio até que ajudado por Weena , uma Eloi, da qual se apaixona, encontra num antigo museu (um palácio de porcelana verde)   ferramentas para encontrar e recuperar sua máquina do tempo , vencer aos  Morlocks e retornar sua viagem.
Consegui reconquistar a nave e no final viaja avançando no tempo milhões de anos, chega à outra época e vê como o sol se detém sobre o céu num crepúsculo eterno e como criaturas gigantes ameaçam sua existência.
Volta para a sua era e narra todas esta historia com detalhes para seus amigos... apenas duas flores brancas deixadas por Weena no seu bolso e alguns ferimentos é o que resta , como prova fática, da sua experiência no alem.

No cinema

O romance inspirou vários filmes ao longo da historia do cinema, podemos destacar a de George Pat em 1960 e a de um dos descendentes do autor, Simon Wells no ano de 2002.

Reflexão final
A ideia de viajar no tempo é algo que fascina a imaginação do homem, a possibilidade de se locomover pelo futuro e assim saber o que vai acontecer é algo que de algum modo nos traz uma espécie de domínio do percurso, do desconhecido, do conhecimento do sentido do que há de vir.
A narração veemente do protagonista narrando a viagem cria um contraponto interessante com o olhar acético dos seus amigos que, no contexto. representam o olhar do mundo científico da época (psicólogo, médico, etc).
Recomendo este livro para iniciar as pessoas no fascínio pela literatura já que nesta narração encontramos o clima de aventura propicio para encantar a fantasia prematura, própria do mundo juvenil.
Este foi o primeiro livro que o Borges leu.
O lado profético do conto é algo pessimista e as imagens parecem sair de alucinações ou pesadelos, Wells entre muitas coisas, com sua obra, nos mostra seu talento e a genialidade da sua imaginação
 
O homem invisível

O homem invisível (The Invisible Man no original- 1897), a ideia de se tornar invisível transforma um homem simples que procurava um determinado objetivo cientifico em outro homem que ao descobrir as vantagens do seu estado (poder se esconder e matar sem ser percebido ) se propõe dominar o mundo.
O livro inspirou vários filmes, um dos mais famosos é de 1933 e pela sua fidelidade e beleza da sua realização acabou se transformando em um clássico do cinema de terror e ciência ficção.
Borges fala que em Wells o patético não é menos importante que a fábula.

A trama

 O protagonista, um cientista de nome Griffin,entediado da sua vida de professor decide se dedicar a investigar a possibilidade de tornar as pessoas ocultas aos olhos, começa suas experiências aplicando um liquido singular primeiro em um pano, depois com um gato (mais seus olhos  ainda ficaram evidentes)  até  aperfeiçoar seu método  e conseguir tornar ao homem invisível ... Decide aplicar em si mesmo a invenção e o contato com esta experiência mudaria seu percurso para sempre.
Fica invisível e em esse estado chega assim, fantasiado com vendas, perucas e chapéus que escondam seu estado para se refugiar numa pacata cidade onde finalmente é descoberto.
Sua personalidade fria e mal-humorada se desdobra, com sua ambição  em facetas assassinas até que finalmente é pego no seu percurso de roubos e maldades colocando um fim a seu comportamento inconsequente..

O texto
o estilo


Existe um lado bem humorado no autor em relação a como organizar a obra, cada capítulo trata de um tema determinado (com duração de algumas páginas)  e de repente inclui um capitulo diminuto onde narra apenas o espanto de uma pessoa ao se sentir ameaçado pelo homem invisível só  para quebrar o ritmo do relato só para mostrar um movimento lúdico 
Em relação as imagens, O autor com um texto delicioso nos conta as peripécias de Griffin (o protagonista) para sobreviver , se vestir, comer...era inverno e seu corpo era invisível mais sua roupa não.
Lutas e perseguições alimentam o ritmo narrativo , uma leitura maravilhosa para que gosta de literatura de qualidade aliada a uma temática ‘B’.