terça-feira, 16 de junho de 2020

Os diabinhos.


Os Clovis e as curiosas viagens da cultura.

Pesquisando sobre as influencias da música africana na musicalidade de Cuba descobri várias fontes dentro das religiões afro-cubanas. Estas tradições alem de trazer instrumentos, ritmos e cantos influenciaram à cultura com mitos, roupas, cores, poesia e rituais.
O tema é um oceano, entre as religiões de origem africana que existem em Cuba reconheço algumas delas temos: a Santeria, a regla de Palos, o Vodú, o Arará , o Ijesá , os Egbado e o Abakuá.
 Na cultura Abakuá encontrei a figura dos íremes, conhecidos como os “diabinhos” são personagens similares a clowns que entre outras funções animam as cerimônias religiosas.
Nos relata o mestre Ramon Torres Zayas: < Os íremes se fantasiam de um modo especial e são relativamente populares em alguns países de África especialmente em Calabar cidade do  sudeste de Nigéria e sudoeste de Cameron, eles nos chegam especificamente das sociedades ekpe de onde provem a cultura Abakuá.
O íreme Abakuá representa um espírito, um ente que vem a "limpar" peças e membros da entidade, a levar-se "a coisa ruim" e, alem, vem a dar fé de que quanto se faz no ritual é correto. Sua linguagem é gestual, porque no articula palavras, sino que se expressa simbolicamente a través do ifán (una rama vegetal) e o itón (uma bengala), embora haja íremes (poucos) que substituem o itòn por um galo vivo, depende da atividade que corresponda a ele realizar.
Aos cubanos nos chega a través do Calabar, mas íreme os há em Cameron, em sociedades bantú da região do Congo, em fim, não é privativo do Abakuá, são, populares em quase toda África
subsahariana>.
                                                                    


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Olhando os íremes percebi que no Brasil existem figuras muito similares no subúrbio carioca durante o carnaval e dentro das tradições da Folia de Reis.
No Rio eles se chamam Clovis e suas fantasias originais alegram o carnaval fazendo parte das festas mais simples que são aquelas que ocorrem sem nenhuma estrutura nos bairros da baixada fluminense. Estas mesmas figuras as encontramos nos ritos da Folia de Reis , grupos também chamados de reisados que saem entre os dias 1 e 6 de janeiro quando as chamadas companhias vão de casa em casa a cantar aos três reis magos. Este ritual é popular na favela Santa Marta no bairro de Botafogo no Rio, no interior de Minas , do Rio e pelo Brasil inteiro.
Pesquisando não encontrei o elo que pudesse narrar a viagem de aqueles íremes para diferentes contextos como são o subúrbio do Rio de Janeiro nem como aqueles personagens ancestrais foram parar numa festividade de origem portuguesa como a Folia de Reis, de todos modos a semelhança nos faz reconhecer que aquelas figuras aparecidas em Calabar , na Africa, faz centos de anos hoje convivem em outros contextos e nos alegram os olhos com seu colorido e sua graça.
Estas figuras alegres e burlescas que permitem múltiplas roupas, máscaras e cores de algum modo representam a exaltação do palhaço, da comedia e da própria vida. Elas nos aproximam um pouco da alegria bucólica das festas populares.




sábado, 18 de abril de 2020

Sikán.


De la serie mitos africanos.


Cada mito es una fuente de inspiración para la pintura, la música o la literatura , este mito especificamente reúne una historia que incluye el sonido de un tambor sagrado.
Las imagenes son de Belkis Ayon e incluimos un texto de Carpentier.
El mito de Sikán .
La religión  Abakuá tiene una ancestralidad africana que viene de la región nigeriana de Calabar.
Nos cuenta el mestre Ramon Torres Zayas que esta cultura no tiene un mito cosmogónico pero tiene como base una leyenda que narra la historia de la princesa Sikán.  En el mito ella escucha la misteriosa voz de Tanze, de la boca de um pez que es la encarnación de un Dios , y esa voz se convierte en el sonido esencial del tambor sagrado.
Como em todos los mitos antiguos existen muchas versiones y muchas variantes  ,vamos a destacar la de Alejo Carpentier y la del próprio Ramon Torres Zayas que es um sacerdote de Abakuá.

Carpentier. 


“Y he aquí que Sicanecua, negra linda, esposa del hechicero, se dirige al río Yecanebión, llevando su cántaro al hombro. . . Y Sicanecua cantaba la canción de las siete cebras que comieron siete hebras y siete lirios, cuando observó que algo bramaba, entre los juncos, como un buey. ¿Buey enano, duende buey? Y Sicanecua atrapa el prodigioso ser-instrumento, y lo encierra en su cántaro amasado con barro de calveros. Era un pez roncador como nunca se viera otro en la comarca. La mujer corre a mostrar el hallazgo a su marido-nazacó [...] Con la piel del pez roncador se construye el primer Écue-llamador. Y como ninguna hembra es capaz de guardar secretos, los tres Obones y el Nazacó degüellan a Sicanecua, y la entierran, con danzas y cantos, bajo el tronco de la palma. (Carpentier, 2012: 203-205)”.

Nos cuenta Ramon Torres Zayas:

“De la formación de la primera entidad en Bekura Mendó, tierra de Usagaré, en el Viejo Calabar, cuando se disputaban el territorio los efí y efó. El poderoso hechicero, Nasakó, había predicho que el pez Tanze, reencarnación del viejo obón Karabalío Okambo, a su vez reencarnación de Abasí (Dios) se le iba a manifestar a un humano. Cierto día Sikán, hija de Mokuire, patriarca efó, fue al río Oddán y cambió su casimba (una jícara, cazuela o tinaja) que dejaba siempre desde el día anterior en la caída de agua para que se llenara y abastecer así a su familia. Resulta que Tanze se introdujo en la tinaja y cuando ella iba de regreso, bramó sobre su cabeza, jurándola como primera obón obonékue. Ella, aterrorizada, se lo contó al padre, este consultó al hechicero Nasakó y la confinaron en una cueva. Pero el pez murió dentro del güiro y se precisó de un conjunto de ceremonias para revivir la Voz divina. De cualquier modo, hubo que sacrificar a Sikán, pues se creía que con su piel podría hacerse algo, ya que ni con la de Tanze, ni jutía, ni carnero, nada, resolvía. Tampoco la de ella sirvió, hasta que la "brujería" de Nasakó le dijo que el cuero del chivo de Iyamba supliría. En fin, que fue así como se logró conseguir reproducir el Sonido .
Eso, a grandes rasgos, es lo que dice el "tratado" de Manán Tereoró, Efó, porque hay muchos otros que difieren poca cosa, pero son diferentes, por ejemplo, para los efí, Sikán no es hija de Mokongo, sino su mujer, porque según estos, Mokongo era Efí, hijo de Efiméremo, el primer Iyamba de ellos. En una versión (efó) ella fue sacrificada antes de que se descubriera que la piel del chivo era efectiva; en otra (efí) por decirle a su marido que ella había descubierto el Secreto que tenían los efó, es decir, por profanación.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Thomas Mann “As cabeças Trocadas”.


Thomas Mann “As cabeças Trocadas”.


“As cabeças Trocadas” é um conto curto de Thomas Mann narrado nos moldes de uma lenda indiana, escrito em forma de narração oral. É uma historia fantástica onde o autor reflete sobre a amizade, a beleza física, o divino e sobre a dicotomia corpo e alma.
Thomas Mann.
Ele é um autor delicado que mergulha no interior dos personagens, no caso, neste breve relato temos um triangulo amoroso com um desfecho trágico.
Um texto raro de Thomas Mann (1875-1955) , diferente do “Doutor Fausto” que relata a historia do compositor alemão Adrian Leverkühn,  distante também de “Morte em Veneza” , a historia de um amor proibido que inspirou o filme de Luchino Visconti, ou também longe do romance autobiográfico que narra a zaga de uma família: “Os Buddenbrooks”.

O roteiro.


Temos três protagonistas: a bela Sita, o rude Nanda e o refinado Shridaman . Por circunstancias sobre naturais o corpo hercúleo de Nanda se junta com a cabeça de Chidaman e vice-versa.
O conto nos abre a interrogação da supremacia da matéria, da carne , da beleza física em contraposição com o valor da alma e do espírito humano.

A tradição védica.

Existe uma discussão interessante entre o bruto Nanda e o culto Shridaman que envolve afirmações do pensamento védico: Estavam os dois amigos deitados num lugar confortável e Nanda diz como o Nirvana mostra sua quietude acolhedora.
Shridaman  o repreende argumentando que toda essa sensação de paz não passa de ilusão e que existe um turbilhão por trás de esta quietude. Que essa Maya (ilusão) o impede de ver de verdade.
Shridaman exemplifica: <Estes pássaros trocam arrulhos somente porque querem fazer amor; estas abelhas e libélulas, estes besouros agitam-se, impelidos pela fome; da relva ressoam secretos rumores de milhares de formas de luta pela vida, e estes cipós, que tão graciosamente cingem as árvores, desejam apenas asfixiá-las para tirar-lhes sumo e fôlego, no único intuito de cevar-se e engordar. Eis o verdadeiro conhecimento do ser. — Não o ignoro — disse Shridaman —, e não me iludo a esse respeito, ou pelo menos só por um momento e de propósito. Pois, além da verdade da razão e de seu conhecimento, existe ainda a simbólica intuição do coração humano, que sabe ler a escrita dos fenômenos não apenas no seu sentido primário, prosaico, mas também segundo seu significado secundário, superior, e a aproveita como recurso para atingir a contemplação do puro e do espiritual. Como queres alcançar a percepção da paz e experimentar a fortuna da imobilidade, sem que, para tanto, uma imagem Maya te ofereça os meios, ainda que tal imagem em si não seja de modo algum fortuna e paz? Aos homens foi dado e concedido que possam servir-se da realidade para vislumbrarem a verdade. Para denominar esse fato e essa licença, a língua criou a palavra “poesia”>.

Inspirado no pensamento dos Vedas, em outro momento diz Thomas Mann:
“a encarnação cria isolamento,
o isolamento cria diferença,
a diferença cria comparação,
a comparação cria inquietude,
a inquietude cria assombro
o assombro cria admiração
e a admiração cria desejo de intercambio e união.
Etad vai tad." (isto é –certamente- aquilo).


Alexandre Pandolfo no artigo: Subjetividade, dilaceramento e narratividade: um ensaio sobre as cabeças trocadas diz: o que se dá sob a rubrica do conhecimento védico, segundo o qual à alma espiritual se opõe ao corpo como uma vestimenta que jamais se identifica com a identidade de si”.

O divino.


O conto faz da beleza de Sita algo sublime , a narração fala sempre da “Maya” (ilusão).  A descrição do banho de Sita parece justamente com a contemplação de uma miragem ou de cena divina.
Em outra circunstancia a deusa  Durgâ-Devi, a própria mãe do mundo, aparece em cena para intermediar sobre a restauração da vida dos amigos Nanda e Shridaman .
O conto se comporta como uma fabula onde o material e o divino se entrelaçam no mesmo universo real.

Final.

A parte mais marcante da historia é a troca das cabeças dos dois jovens apaixonados por uma mesma garota. Cria-se , a partir das trocas, uma síntese ideal já que ela admira um e deseja ao outro. Esta saída porem não decidira o problema, e a morte acabará por resolver o final do triangulo amoroso. Um belo livro inspirado na sabedoria dos Vedas.




sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Contos sobre o desejo pelo interditado.


Falando sobre a atração que sentimos pelo proibido.

Nos contos das mil e uma noites tem uma passagem na narração :“historia do terceiro filho do rei”  que aqui vamos recriar numa versão livre do relato.
A cena ocorre em uma sala onde um príncipe encontra a 11 homens tristes, o curioso é que todos eles tinham uma grande cicatriz no rosto.
O príncipe pergunta o que tinha ocorrido a eles para terem ficado assim machucados e um deles responde: - você quer mesmo saber o que nos aconteceu? O príncipe afirma que sim e depois de uma serie de circunstâncias de natureza onírica ele é conduzido ao interior de um palácio majestoso.
No palácio aparece um grupo de mulheres preciosas que o conduzem a tomar um banho de água morna aromatizado de ervas e depois de pentear seus cabelos e perfumar seu corpo o vestem com roupas magníficas.
As mulheres eram todas princesas e depois do banho o servem com as comidas mais saborosas  e os melhores vinhos . A noite o colocam num quarto ricamente decorado , tiram sua roupa e o vestem com uma túnica divinamente enfeitada. 
As princesas falam pra ele que poderia escolher entre uma delas para compartilhar seu leito, avisam que no amanhecer todas teriam que deixar o palácio por 30 dias e que depois voltariam para ficar indefinidamente.
Advertem que deixariam as chaves das 30 portas da residência, mas que ele deveria evitar entrar na porta feita de ouro.
Ao acordar o príncipe abriu uma das portas e encontrou uma mesa com um maravilhoso café da manhã: tinha bolos, frutas, sucos, carnes, queijos, diversos tipos de pães, gelatinas, frutas secas, café, chã, leite e até um abacaxi decorado com cerejas que pareciam rubis gigantes.
O príncipe passou 29 dias se deleitando com o que encontrava atrás de cada porta: eram roupas, livros, pinturas, instrumentos de música e até uma coleção imensa de esculturas feitas em madeira nobre que reproduziam historias milenares da região.
No ultimo dia sua tentação o levou a abrir a derradeira porta de ouro , quando esto ocorre atrás de uma fumaça que instala um silencio atros  surge um imenso  cavalo branco que atacou e golpeou seu rosto criando uma ferida profunda.
O príncipe acordou na sala inicial no meio de aqueles 11 homens que o olharam de forma resignada .



domingo, 22 de setembro de 2019

Gustav Meyrink: “O Golem”.


Gustav Meyrink: “O Golem”.


Um livro de 1915  muito moderno no estilo, a voz do narrador ocupa lugares diferentes quase que  o tempo todo. Um pré anuncio do expressionismo alemão.   Inspirador seguramente do filme “O Dr. Caligari” de 1920 e o “Golem” de Carl Boese e Paul Wegener e mito precedente até do Frankenstein.

https://youtu.be/FkNbj6jJkFw

Borges diz sobre o livro: ”Meyrink como Lewis Caroll sabe que a ficção  esta feita de sonhos que encerram outros sonhos”.

Sobre o autor.                                   

Meyrink nasceu em Viena em 1868, em 1902 (aos 24 anos) tentou suicídio,  no momento derradeiro, alguém abandonou na sua porta um folheto titulado “A vida final” e isso o salvou., aos 36 escreveu “O Golem”  imerso nos estudos cabalísticos e no budismo e nas tradições esotéricas.

O titulo.

O titulo faz referencia ao Golem embora, na realidade o livro deveria se chamar: “Os sonhos de Athanasius Pernath”. A presença do Golem apenas serve como fundo, introduzindo  ambiguidade e  mistério ao enredo.
O Golem é uma lenda clássica da tradição judaica, uma figura de barro que toma vida depois de receber o segredo nome de Deus de parte de um cabalista, aqui no livro o Golem aparece nas ruas do gueto de Praga cada 33 anos, ele mora num quarto sem acessos onde só tem uma janela com grades.

O livro.                                                     

O romance começa com imagens livres e a narrativa vai se construindo em um clima de sonhos e irrealidade.
Uma ponderação tirada da vida de Buda faz o protagonista refletir: Buda sentia uma impressão quando um aluno seu o abandonava como algo similar ao que ocorre quando um pássaro se aproxima de algo que parece um pedaço de carne e se afasta ao perceber que na realidade era uma pedra.
O clima todo é de enigmas: o protagonista por momentos sente que seu corpo realiza atos involuntários e por momentos assiste narrações e cenas que indicam a presença viva do Golem. Por momentos se comporta como se ele mesmo fosse o Golem.
O argumento é centrado na vida do protagonista: Athanasius Pernath. Ele é um artesão de jóias, tem menos de 45 anos e para ajudar a esquecer algo traumático seu passado ficou apagado depois de uma sessão  de hipnotismo. A trama descreve suas desavenças (vai preso) , seus amores e o dia a dia dos personagens  do gueto judeu.
Pernath  tem na figura de Hillel um maestro espiritual . O protagonista se apaixona por Miriam filha de Hilllel. Tem também no relato a presença de Wassertrum, odiado pelo seu filho Charousek. Wassertrum  envolve  o protagonista num delito que ele não  cometeu, a saída da cadeia e o reencontro com a realidade determinam o destino do protagonista.

Sonhos que encerram outros sonhos.

O curioso da historia é a presença de outro Athanasius Pernath o que produz um jogo de realidades paralelas que torna a narração original.
Inclusive existe uma comparação muito interessante entre o mundo interior do Pernath e o quarto onde morava o Golem, como se ele quisesse olhar para dentro de si mesmo ao igual que teria vontade de olhar para dentro do quarto do Golem.

Recursos literários.

Alem desse jogo de narradores que assumem o relato uma das ferramentas da arte literária e abrir espaços para imagens poéticas , aqui o autor faz uma comparação entre o vento agitando papeis e as forças do destino -“Uma vez estive olhando numa praça como o vento fazia que  papeis corressem girando como loucos se jurando a morte. Um momento mais tarde pareciam calmos. Me vem uma obscura suspeita : que aconteceria se as  coisas da vida fossem semelhantes a esses papeis”.
Outra das ferramentas do autor foi a de inserir historias paralelas fora do percurso central, aqui o caso: “A historia do advogado Dr Hulbert e seu batalhão”.
A historia que interrompe o roteiro conta a historia do  Dr Hulbert. Ele adorava sua bela esposa, quando esta se apaixonou de um estudante que ele tinha acolhido, o Dr perdeu a cabeça e virou mendigo. Começou a se juntar com outros moradores de rua e a defendê-los graças a seu conhecimento das leis.
A turma que seguia a Hulbert  ficou conhecida como “o batalhão” e quando o Dr. morreu deixou como testamento a tarefa de dar um prato de sopa para cada membro do seu grupo.
Também atravessam a narração central a historia do perverso Dr Eaaory que enganava a seus pacientes tirando dinheiro com um falso diagnostico. Quando foi descoberto cometeu suicídio.

Final.

Um conto fantástico com recursos narrativos avançados,  no fundo uma historia  lendária  inserida num relato enigmático .
O “acaso” satisfazendo  seus mágicos anseios permitiu o encontro . Sinto-me grato por ter sido apresentado ao Meyrink.

Recomendo  a resenha  de:  Carlos Caranci Sáez, Alejandro Gamero e de Jorge  Luis Borges.











        

    



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Borges fantástico


Tlön, Uqbar, Orbis Tertius.

Esse é o título de um conto fantástico do autor argentino Jorge Luis Borges.
Em apenas 12 páginas o autor consegue colocar  idéias e imagens que confirmam sua imaginação  genial.
É um relato, tipo diário,  escrito em primeira pessoa que narra o encontro com o planeta “Uqbar”, (“Tlön” é uma da suas regiões) e “Orbis Tertius” a edição de 40 volumes sobre este universo , daí o título.
Em relação aos nomes utilizados para o título : Uqbar é uma criação , existem interpretações que vem no nome Tlön uma referencia com Atlântida e Orbis Tertius significa “um outro lugar”, “terceiro mundo” ou “um planeta fora das opções conhecidas”. .
Um dos personagens do conto (Buckley)  sinaliza o caminho para decifrar o labirinto: “Quer demonstrar ao Deus inexistente que os homens mortais são capazes  de conceber um mundo”.
Com o relato Tlön, Uqbar, Orbis Tertius surpreendeu ,nos anos 40, a toda uma cidade portenha que nunca o esqueceu.

Sobre Borges.

Foi um dos mais importantes escritores do século XX. Tímido e irônico amou a literatura inglesa, o livro das mil e uma noites, o tango e ao Edgar Alan Poe por ele ter renovado, com a sua neurose, o conto fantástico, um dos seus gêneros literários preferidos.
Sua vida foi uma melancólica caminhada pelas ruas portenhas e pelos temas existenciais : “ Só uma coisa não há, é o olvido” diz Borges no poema Everness.
Ele foi um escritor pensador, Borges diz, por exemplo,  sobre o fato estético em 1950: “La música, los estados de la felicidad, la mitología, las caras trabajadas por el tiempo, ciertos crepúsculos y ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético”. 

Sobre Tlön, Uqbar, Orbis Tertius.

Apareceu publicado pela primeira vez no jornal argentino Sur em 1940. O enredo principal do conto é o encontro com o além, a descrição desse outro mundo e a ingerência do mundo fictício na realidade.

A criatividade.

Borges cria um mundo, uma linguagem, poesias, visões, idéias e cria um pretexto (nos dos sentidos da palavra) para exercer a sua imaginação e ensaiar sobre teorias filosóficas que o influenciavam.
Para isso cria todo um universo, um mundo que se desfaz assim que a gente fechar a ultima pagina do curto relato.
Ainda assim por algum tempo ficamos pensando nos hrönir, no exemplo das moedas, nas visões do tempo e mais que nada na capacidade do autor de recriar uma historia inacreditável que ingressa no mundo da nossa imaginação. 

O relato.

Borges junto a seu amigo Bioy Casares assiste a cena de um espelho refletindo o volumem de uma enciclopédia,  Bioy Casares lembra uma frase que atribui a um habitante de Ugbar: “os espelhos e a cúpula são abomináveis por que multiplicam o numero dos homens”.
 Esta frase teria sido expressada numa enciclopédia num artigo sobre Uqbar. O estranho é que na enciclopédia a parte dedicada a Uqbar é omitida na edição presente na cena do espelho, mas é achada na edição que Bioy Casares encontra na sua casa um dia depois.  Assim começa este conto meio policial, meio fantástico e meio filosófico.

A forma e o conteúdo.

A história se divide em três momentos. Na primeira seção, o narrador (em primeira pessoa) e seu amigo e colaborador, Adolfo Bioy Casares, (amigo de Borges na vida real) protagonizam a cena do espelho e logo discutem um hipotético “romance em primeira pessoa, cujo narrador omitiria ou desfiguraria os fatos e se entregaria a várias contradições que permitiriam a alguns leitores - muito poucos leitores - perceber uma realidade atroz ou banal ”. 
A segunda seção descreve a descoberta , dois anos depois (em 1937), do décimo primeiro volume de A primeira enciclopédia de Tlön , deixada em um bar pelo um sombrio inglês, Herbert Ashe. A enciclopédia tem em sua primeira página um oval azul estampado inscrito "Orbis Tertius", e descreve um "vasto fragmento metódico de toda a história de um planeta desconhecido", suas línguas, filosofia, ciência, matemática e literatura. 
As pessoas desse planeta imaginário são “congenitamente idealistas” e não acreditam na existência material e objetiva de seus arredores. Eles acreditam apenas no que eles próprios percebem e, portanto, o “mundo para eles não é um concurso de objetos no espaço; é uma série heterogênea de atos independentes. É sucessivo e temporal, não espacial ”. Na linguagem, isso significa que não há substantivos para objetos concretos, apenas agregados de adjetivos que descrevem o momento imediato. Causa e efeito não se relacionam. Objetos são mantidos para desaparecer fisicamente introduzindo o  conceito de hrönir . Os Hrönir ,  são cópias imperfeitas de objetos que são formados quando um objeto é perdido (este tema lembra um pouco as teorias do seu amigo Macedonio Fernandez sobre os objetos esquecidos). 
O pós-escrito da história é datado de 1947 (o conto foi publicado em 1940) e analisa o início e o impacto subseqüente de Tlön. Ele explica que Tlön, Uqbar e Orbis Tertius foram a idéia de uma sociedade secreta de especialistas de uma ampla gama de disciplinas (incluindo Herbert Ashe), financiada pelo milionário Ezra Buckley., que convenceu a sociedade em 1824 a expandir seu objetivo de inventar um país para inventar um mundo. Borges observa várias "intrusões" de Tlön no mundo real, sendo a mais notável a descoberta em 1942 de um artefato de Tlön na mão de um moribundo no povoado  “Cuchilla Negra”; um pequeno cone de metal de material desconhecido que era inexplicavelmente pesado  . Borges acredita que a sociedade secreta, propagada através do tempo, orquestrou a descoberta de vários artefatos e documentos tlönianos, fazendo com que a realidade fosse tomada por Tlön. Quando o conto de Borges termina em 1947, Tlön "desintegrou este mundo. Encantada pelo rigor de Tlön, a humanidade esqueceu, e continua a esquecer, que é o rigor dos mestres de xadrez, não dos anjos".

 Parágrafos inesquecíveis.


Falando sobre a linguagem em Tlön: ”Abundam os objetos ideais, convocados e dissolvidos  em um momento, segundo as necessidades poéticas. Os determina, as vezes, a mera simultaneidade. Há objetos compostos de duas partes, um de caráter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de um pássaro. Tem muitos: o sol e a água contra o peito do nadador, o copo rosa tremulo que se vê com os olhos fechados, a sensação de quem se deixa levar por um rio e também por um sonho”.
Sobre o tempo: “o presente é indefinido, o futuro tem realidade só como esperança presente, e o passado só tem realidade como lembrança presente”.
Esta afirmação nos indica uma citação do Russell de 1921 onde ele supõe que o planeta foi criado , faz poucos minutos, habitado por uma população que “lembra” um passado ilusório. 
Também algo interessante é que em Tlön se acredita que todas as obras são de um só autor que é atemporal e anônimo.  Isto torna desnecessário assinar a autoria e desfaz a idéia de plágio.
A frase mais conhecida do livro é seguramente: "os meta-físicos de Tlön não buscam a verdade nem sequer a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é uma rama da literatura fantástica". Esta ultima afirmação é um aforismo de autoria dos filósofos do circulo de Viena.

Final.

Este conto causou múltiplas interpretações e alimentou a imaginação pontual de uma Buenos Aires desprevenida que acorda numa manhã de 1940 com a irrupção de Tlön na vida corrente.  

domingo, 14 de julho de 2019

O Castelo de Yodo


Yasushi Inque


O Castelo de Yodo

Existiu uma época no período Edo onde expressar abertamente um sentimento era considerado vulgar.


Quem acompanha meu blog teve, nas ultimas publicações, um panorama mínimo de quatro autores fundamentais da literatura japonesa: Falamos sobre o conto poético de Yasunari Kawabata “A Dançarina de Izu”, do romance intimista “O Portal” de Natsume Sōseki e da obra de Tanizaki : “A gata, um homem e duas mulheres” e “o cortador de Juncos”.Já tínhamos comentado o livro de Yasushi Inque “O fuzil de caça”, um romance atual no qual, um triangulo amoroso é narrado desde três perspectivas diferentes; do mesmo autor hoje vamos falar sobre o romance épico: “O Castelo de Yodo”.

O livro.


Basicamente estamos ante um retrato histórico da aristocracia japonesa do século XVI a historia é narrada desde a perspectiva feminina de uma princesa, a descrição ganha em detalhes sobre a vida da época, os sentimentos e a fúria na qual conviviam submetidos e dominadores.

O nome do livro.


O título em português é  “O castelo de Yodo”.
Chacha ao aceitar ser concubina do algoz da sua família solicitou que Hideyoshi construiria um castelo para ela mesma, isto serviria para, de alguma forma, compensar suas perdas e por outro serviria como termômetro para avaliar sua influencia sobre seu futuro cônjuge.
Yodo é o nome do lugar onde foi construído o castelo. No romance Chacha também é conhecida como a “a dama de Yodo”.
O título japonês O diário de Yodo-dono faz menção aos diários escritos por nobres. Além da curiosa referência histórica, a idéia de que o romance é o diário de Chacha, e podemos considerá-lo, foi uma intenção precisa no quesito do protagonismo ser feminino.


O contexto histórico.  


Japão, século XVI, O livro relata um momento no qual se sucederam três lideranças.  Período Azuchi-Momoyama (1573-1603) o general Toyotomi Hideyoshi, que servira Nobunaga, sucedeu seu antigo senhor.
Chacha princesa de alto escalão acaba virando concubina de Toyotomi Hideyoshi, o homem que matou sua família e tornou-se após a morte de Oda o homem mais poderoso do Japão, com ele tem um filho chamado Hideyori, no final do relato o romance narra à luta de Chacha para que Hideory fosse o sucessor do pai, mas as forças de Tokugawa derrotaram o clã de Hideyoshi, levando a morte de Chacha e de Hideyori, seu filho.

A poesia e a barbárie no texto.

O tom poético, elemento importante da literatura japonesa, fica por conta dos momentos íntimos, dos pensamentos e da contemplação da natureza.
Ao contrario o lado atroz o encontramos na crueldade com que são tratados os prisioneiros de guerra, quase sempre exterminados de forma fria e sádica. Muitas vezes obrigados a cometerem suicídio em um ato chamado seppuku.
Aqui alguns exemplos destes dois sentidos:
Do sentido poético.
Na infância de Chacha ocorre uma cena curiosa: Um pintor fazia um retrato de seu falecido pai , o artista ia e voltava com resultados parciais, a mãe esperava ver o olhar sereno de seu defunto esposo na pintura, Sacha ao contrario não encontrava no esboço o olhar severo de seu pai. Mãe e filha ponderam sobre qual das imagens pessoais se aproxima mais do verdadeiro.
Agora um exemplo da arte japonesa: no vestido de noiva da mãe de Chacha ela veste um quimono branco com o emblema saiwaibishi.





Outro exemplo do poético no texto o encontrou quando a mãe de Chacha e seu conjugue sofrem um ataque militar no seu castelo e se preparam para a cerimônia do suicídio. Ela escreve: “Na já sonolenta noite de verão/ ao caminho dos sonhos/ convida o rouxinol. E seu marido responde:” Na triste noite de verão/leva minha amada/ pelo caminho dos sonhos/À fonte das neves/Ó rouxinol das montanhas”.
Do sentido desumano.
As descrições sádicas incluem cortar cabeças e colocar-las como enfeite nas festas, incendiar, destruir e exterminar.
Um outro exemplo de uma violência desnecessária o encontramos na passagem na qual um guerreiro chamado Morimasa estava sendo especialmente procurado durante o período de guerras, ele sempre conseguia atacar e fugir sem poder ser localizado.
Um grupo de 12 camponeses consegue prender o combatente e quando entregam o prisioneiro ao Hideyoshi este manda crucificar os camponeses por terem se envolvido em historias de samurais, que não lhe diziam respeito.

As historias paralelas.


A diferença de um conto, um romance longo como este, narra uma historia e ao mesmo tempo tece uma infinidade de historias secundarias.
Neste livro temos, por exemplo, a historia das irmãs da ChaCha, a de seus amores platônicos, a relação dela com as outras concubinas em especial com sua prima Kyogoku e com a esposa oficial de Hideyoshi: Kitanomandokoro .
A luta para engravidar e a morte do seu primeiro filho.
A sua eterna solidão ao ser uma mulher em um sentido prisioneira luxuosa de um dono todo poderoso.
As imagens que a perseguem e torturam desde a infância quando teve que sair da sua casa no meio das chamas.
As cerimônias, as festas e os rituais pomposos da sua vida aristocrática.

Os cortejos.


Uma coisa que surpreende é a magnificência dos cortejos, vamos citar um deles: “O cortejo avançava lentamente na brisa de maio. Em duas fileiras , vinham 300 baús; logo atrás, homens carregando espadas, lanças e fuzis. Os vassalos traziam mantos vermelhos e punhais. Em seguida vinham cães vestidos de brocado...”

Final.


Neste romance épico estão reunidos também todos os ingredientes para um grande afresco histórico. 
Yasushi Inque descreve como o era o estatuto das concubinas, o estilo de vida da aristocracia, as tradições guerreiras, a política, a cerimônia do chá e até o belo ritual da florada das cerejeiras.
O Castelo de Yodo é um mosaico de uma época na qual uma mulher tece o percurso de três unificadores, recomendo esta bela ficção inspirada em fatos reais.