sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Contos sobre o desejo pelo interditado.


Falando sobre a atração que sentimos pelo proibido.

Nos contos das mil e uma noites tem uma passagem na narração :“historia do terceiro filho do rei”  que aqui vamos recriar numa versão livre do relato.
A cena ocorre em uma sala onde um príncipe encontra a 11 homens tristes, o curioso é que todos eles tinham uma grande cicatriz no rosto.
O príncipe pergunta o que tinha ocorrido a eles para terem ficado assim machucados e um deles responde: - você quer mesmo saber o que nos aconteceu? O príncipe afirma que sim e depois de uma serie de circunstâncias de natureza onírica ele é conduzido ao interior de um palácio majestoso.
No palácio aparece um grupo de mulheres preciosas que o conduzem a tomar um banho de água morna aromatizado de ervas e depois de pentear seus cabelos e perfumar seu corpo o vestem com roupas magníficas.
As mulheres eram todas princesas e depois do banho o servem com as comidas mais saborosas  e os melhores vinhos . A noite o colocam num quarto ricamente decorado , tiram sua roupa e o vestem com uma túnica divinamente enfeitada. 
As princesas falam pra ele que poderia escolher entre uma delas para compartilhar seu leito, avisam que no amanhecer todas teriam que deixar o palácio por 30 dias e que depois voltariam para ficar indefinidamente.
Advertem que deixariam as chaves das 30 portas da residência, mas que ele deveria evitar entrar na porta feita de ouro.
Ao acordar o príncipe abriu uma das portas e encontrou uma mesa com um maravilhoso café da manhã: tinha bolos, frutas, sucos, carnes, queijos, diversos tipos de pães, gelatinas, frutas secas, café, chã, leite e até um abacaxi decorado com cerejas que pareciam rubis gigantes.
O príncipe passou 29 dias se deleitando com o que encontrava atrás de cada porta: eram roupas, livros, pinturas, instrumentos de música e até uma coleção imensa de esculturas feitas em madeira nobre que reproduziam historias milenares da região.
No ultimo dia sua tentação o levou a abrir a derradeira porta de ouro , quando esto ocorre atrás de uma fumaça que instala um silencio atros  surge um imenso  cavalo branco que atacou e golpeou seu rosto criando uma ferida profunda.
O príncipe acordou na sala inicial no meio de aqueles 11 homens que o olharam de forma resignada .



domingo, 22 de setembro de 2019

Gustav Meyrink: “O Golem”.


Gustav Meyrink: “O Golem”.


Um livro de 1915  muito moderno no estilo, a voz do narrador ocupa lugares diferentes quase que  o tempo todo. Um pré anuncio do expressionismo alemão.   Inspirador seguramente do filme “O Dr. Caligari” de 1920 e o “Golem” de Carl Boese e Paul Wegener e mito precedente até do Frankenstein.

https://youtu.be/FkNbj6jJkFw

Borges diz sobre o livro: ”Meyrink como Lewis Caroll sabe que a ficção  esta feita de sonhos que encerram outros sonhos”.

Sobre o autor.                                   

Meyrink nasceu em Viena em 1868, em 1902 (aos 24 anos) tentou suicídio,  no momento derradeiro, alguém abandonou na sua porta um folheto titulado “A vida final” e isso o salvou., aos 36 escreveu “O Golem”  imerso nos estudos cabalísticos e no budismo e nas tradições esotéricas.

O titulo.

O titulo faz referencia ao Golem embora, na realidade o livro deveria se chamar: “Os sonhos de Athanasius Pernath”. A presença do Golem apenas serve como fundo, introduzindo  ambiguidade e  mistério ao enredo.
O Golem é uma lenda clássica da tradição judaica, uma figura de barro que toma vida depois de receber o segredo nome de Deus de parte de um cabalista, aqui no livro o Golem aparece nas ruas do gueto de Praga cada 33 anos, ele mora num quarto sem acessos onde só tem uma janela com grades.

O livro.                                                     

O romance começa com imagens livres e a narrativa vai se construindo em um clima de sonhos e irrealidade.
Uma ponderação tirada da vida de Buda faz o protagonista refletir: Buda sentia uma impressão quando um aluno seu o abandonava como algo similar ao que ocorre quando um pássaro se aproxima de algo que parece um pedaço de carne e se afasta ao perceber que na realidade era uma pedra.
O clima todo é de enigmas: o protagonista por momentos sente que seu corpo realiza atos involuntários e por momentos assiste narrações e cenas que indicam a presença viva do Golem. Por momentos se comporta como se ele mesmo fosse o Golem.
O argumento é centrado na vida do protagonista: Athanasius Pernath. Ele é um artesão de jóias, tem menos de 45 anos e para ajudar a esquecer algo traumático seu passado ficou apagado depois de uma sessão  de hipnotismo. A trama descreve suas desavenças (vai preso) , seus amores e o dia a dia dos personagens  do gueto judeu.
Pernath  tem na figura de Hillel um maestro espiritual . O protagonista se apaixona por Miriam filha de Hilllel. Tem também no relato a presença de Wassertrum, odiado pelo seu filho Charousek. Wassertrum  envolve  o protagonista num delito que ele não  cometeu, a saída da cadeia e o reencontro com a realidade determinam o destino do protagonista.

Sonhos que encerram outros sonhos.

O curioso da historia é a presença de outro Athanasius Pernath o que produz um jogo de realidades paralelas que torna a narração original.
Inclusive existe uma comparação muito interessante entre o mundo interior do Pernath e o quarto onde morava o Golem, como se ele quisesse olhar para dentro de si mesmo ao igual que teria vontade de olhar para dentro do quarto do Golem.

Recursos literários.

Alem desse jogo de narradores que assumem o relato uma das ferramentas da arte literária e abrir espaços para imagens poéticas , aqui o autor faz uma comparação entre o vento agitando papeis e as forças do destino -“Uma vez estive olhando numa praça como o vento fazia que  papeis corressem girando como loucos se jurando a morte. Um momento mais tarde pareciam calmos. Me vem uma obscura suspeita : que aconteceria se as  coisas da vida fossem semelhantes a esses papeis”.
Outra das ferramentas do autor foi a de inserir historias paralelas fora do percurso central, aqui o caso: “A historia do advogado Dr Hulbert e seu batalhão”.
A historia que interrompe o roteiro conta a historia do  Dr Hulbert. Ele adorava sua bela esposa, quando esta se apaixonou de um estudante que ele tinha acolhido, o Dr perdeu a cabeça e virou mendigo. Começou a se juntar com outros moradores de rua e a defendê-los graças a seu conhecimento das leis.
A turma que seguia a Hulbert  ficou conhecida como “o batalhão” e quando o Dr. morreu deixou como testamento a tarefa de dar um prato de sopa para cada membro do seu grupo.
Também atravessam a narração central a historia do perverso Dr Eaaory que enganava a seus pacientes tirando dinheiro com um falso diagnostico. Quando foi descoberto cometeu suicídio.

Final.

Um conto fantástico com recursos narrativos avançados,  no fundo uma historia  lendária  inserida num relato enigmático .
O “acaso” satisfazendo  seus mágicos anseios permitiu o encontro . Sinto-me grato por ter sido apresentado ao Meyrink.

Recomendo  a resenha  de:  Carlos Caranci Sáez, Alejandro Gamero e de Jorge  Luis Borges.











        

    



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Borges fantástico


Tlön, Uqbar, Orbis Tertius.

Esse é o título de um conto fantástico do autor argentino Jorge Luis Borges.
Em apenas 12 páginas o autor consegue colocar  idéias e imagens que confirmam sua imaginação  genial.
É um relato, tipo diário,  escrito em primeira pessoa que narra o encontro com o planeta “Uqbar”, (“Tlön” é uma da suas regiões) e “Orbis Tertius” a edição de 40 volumes sobre este universo , daí o título.
Em relação aos nomes utilizados para o título : Uqbar é uma criação , existem interpretações que vem no nome Tlön uma referencia com Atlântida e Orbis Tertius significa “um outro lugar”, “terceiro mundo” ou “um planeta fora das opções conhecidas”. .
Um dos personagens do conto (Buckley)  sinaliza o caminho para decifrar o labirinto: “Quer demonstrar ao Deus inexistente que os homens mortais são capazes  de conceber um mundo”.
Com o relato Tlön, Uqbar, Orbis Tertius surpreendeu ,nos anos 40, a toda uma cidade portenha que nunca o esqueceu.

Sobre Borges.

Foi um dos mais importantes escritores do século XX. Tímido e irônico amou a literatura inglesa, o livro das mil e uma noites, o tango e ao Edgar Alan Poe por ele ter renovado, com a sua neurose, o conto fantástico, um dos seus gêneros literários preferidos.
Sua vida foi uma melancólica caminhada pelas ruas portenhas e pelos temas existenciais : “ Só uma coisa não há, é o olvido” diz Borges no poema Everness.
Ele foi um escritor pensador, Borges diz, por exemplo,  sobre o fato estético em 1950: “La música, los estados de la felicidad, la mitología, las caras trabajadas por el tiempo, ciertos crepúsculos y ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético”. 

Sobre Tlön, Uqbar, Orbis Tertius.

Apareceu publicado pela primeira vez no jornal argentino Sur em 1940. O enredo principal do conto é o encontro com o além, a descrição desse outro mundo e a ingerência do mundo fictício na realidade.

A criatividade.

Borges cria um mundo, uma linguagem, poesias, visões, idéias e cria um pretexto (nos dos sentidos da palavra) para exercer a sua imaginação e ensaiar sobre teorias filosóficas que o influenciavam.
Para isso cria todo um universo, um mundo que se desfaz assim que a gente fechar a ultima pagina do curto relato.
Ainda assim por algum tempo ficamos pensando nos hrönir, no exemplo das moedas, nas visões do tempo e mais que nada na capacidade do autor de recriar uma historia inacreditável que ingressa no mundo da nossa imaginação. 

O relato.

Borges junto a seu amigo Bioy Casares assiste a cena de um espelho refletindo o volumem de uma enciclopédia,  Bioy Casares lembra uma frase que atribui a um habitante de Ugbar: “os espelhos e a cúpula são abomináveis por que multiplicam o numero dos homens”.
 Esta frase teria sido expressada numa enciclopédia num artigo sobre Uqbar. O estranho é que na enciclopédia a parte dedicada a Uqbar é omitida na edição presente na cena do espelho, mas é achada na edição que Bioy Casares encontra na sua casa um dia depois.  Assim começa este conto meio policial, meio fantástico e meio filosófico.

A forma e o conteúdo.

A história se divide em três momentos. Na primeira seção, o narrador (em primeira pessoa) e seu amigo e colaborador, Adolfo Bioy Casares, (amigo de Borges na vida real) protagonizam a cena do espelho e logo discutem um hipotético “romance em primeira pessoa, cujo narrador omitiria ou desfiguraria os fatos e se entregaria a várias contradições que permitiriam a alguns leitores - muito poucos leitores - perceber uma realidade atroz ou banal ”. 
A segunda seção descreve a descoberta , dois anos depois (em 1937), do décimo primeiro volume de A primeira enciclopédia de Tlön , deixada em um bar pelo um sombrio inglês, Herbert Ashe. A enciclopédia tem em sua primeira página um oval azul estampado inscrito "Orbis Tertius", e descreve um "vasto fragmento metódico de toda a história de um planeta desconhecido", suas línguas, filosofia, ciência, matemática e literatura. 
As pessoas desse planeta imaginário são “congenitamente idealistas” e não acreditam na existência material e objetiva de seus arredores. Eles acreditam apenas no que eles próprios percebem e, portanto, o “mundo para eles não é um concurso de objetos no espaço; é uma série heterogênea de atos independentes. É sucessivo e temporal, não espacial ”. Na linguagem, isso significa que não há substantivos para objetos concretos, apenas agregados de adjetivos que descrevem o momento imediato. Causa e efeito não se relacionam. Objetos são mantidos para desaparecer fisicamente introduzindo o  conceito de hrönir . Os Hrönir ,  são cópias imperfeitas de objetos que são formados quando um objeto é perdido (este tema lembra um pouco as teorias do seu amigo Macedonio Fernandez sobre os objetos esquecidos). 
O pós-escrito da história é datado de 1947 (o conto foi publicado em 1940) e analisa o início e o impacto subseqüente de Tlön. Ele explica que Tlön, Uqbar e Orbis Tertius foram a idéia de uma sociedade secreta de especialistas de uma ampla gama de disciplinas (incluindo Herbert Ashe), financiada pelo milionário Ezra Buckley., que convenceu a sociedade em 1824 a expandir seu objetivo de inventar um país para inventar um mundo. Borges observa várias "intrusões" de Tlön no mundo real, sendo a mais notável a descoberta em 1942 de um artefato de Tlön na mão de um moribundo no povoado  “Cuchilla Negra”; um pequeno cone de metal de material desconhecido que era inexplicavelmente pesado  . Borges acredita que a sociedade secreta, propagada através do tempo, orquestrou a descoberta de vários artefatos e documentos tlönianos, fazendo com que a realidade fosse tomada por Tlön. Quando o conto de Borges termina em 1947, Tlön "desintegrou este mundo. Encantada pelo rigor de Tlön, a humanidade esqueceu, e continua a esquecer, que é o rigor dos mestres de xadrez, não dos anjos".

 Parágrafos inesquecíveis.


Falando sobre a linguagem em Tlön: ”Abundam os objetos ideais, convocados e dissolvidos  em um momento, segundo as necessidades poéticas. Os determina, as vezes, a mera simultaneidade. Há objetos compostos de duas partes, um de caráter visual e outro auditivo: a cor do nascente e o remoto grito de um pássaro. Tem muitos: o sol e a água contra o peito do nadador, o copo rosa tremulo que se vê com os olhos fechados, a sensação de quem se deixa levar por um rio e também por um sonho”.
Sobre o tempo: “o presente é indefinido, o futuro tem realidade só como esperança presente, e o passado só tem realidade como lembrança presente”.
Esta afirmação nos indica uma citação do Russell de 1921 onde ele supõe que o planeta foi criado , faz poucos minutos, habitado por uma população que “lembra” um passado ilusório. 
Também algo interessante é que em Tlön se acredita que todas as obras são de um só autor que é atemporal e anônimo.  Isto torna desnecessário assinar a autoria e desfaz a idéia de plágio.
A frase mais conhecida do livro é seguramente: "os meta-físicos de Tlön não buscam a verdade nem sequer a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é uma rama da literatura fantástica". Esta ultima afirmação é um aforismo de autoria dos filósofos do circulo de Viena.

Final.

Este conto causou múltiplas interpretações e alimentou a imaginação pontual de uma Buenos Aires desprevenida que acorda numa manhã de 1940 com a irrupção de Tlön na vida corrente.  

domingo, 14 de julho de 2019

O Castelo de Yodo


Yasushi Inque


O Castelo de Yodo

Existiu uma época no período Edo onde expressar abertamente um sentimento era considerado vulgar.


Quem acompanha meu blog teve, nas ultimas publicações, um panorama mínimo de quatro autores fundamentais da literatura japonesa: Falamos sobre o conto poético de Yasunari Kawabata “A Dançarina de Izu”, do romance intimista “O Portal” de Natsume Sōseki e da obra de Tanizaki : “A gata, um homem e duas mulheres” e “o cortador de Juncos”.Já tínhamos comentado o livro de Yasushi Inque “O fuzil de caça”, um romance atual no qual, um triangulo amoroso é narrado desde três perspectivas diferentes; do mesmo autor hoje vamos falar sobre o romance épico: “O Castelo de Yodo”.

O livro.


Basicamente estamos ante um retrato histórico da aristocracia japonesa do século XVI a historia é narrada desde a perspectiva feminina de uma princesa, a descrição ganha em detalhes sobre a vida da época, os sentimentos e a fúria na qual conviviam submetidos e dominadores.

O nome do livro.


O título em português é  “O castelo de Yodo”.
Chacha ao aceitar ser concubina do algoz da sua família solicitou que Hideyoshi construiria um castelo para ela mesma, isto serviria para, de alguma forma, compensar suas perdas e por outro serviria como termômetro para avaliar sua influencia sobre seu futuro cônjuge.
Yodo é o nome do lugar onde foi construído o castelo. No romance Chacha também é conhecida como a “a dama de Yodo”.
O título japonês O diário de Yodo-dono faz menção aos diários escritos por nobres. Além da curiosa referência histórica, a idéia de que o romance é o diário de Chacha, e podemos considerá-lo, foi uma intenção precisa no quesito do protagonismo ser feminino.


O contexto histórico.  


Japão, século XVI, O livro relata um momento no qual se sucederam três lideranças.  Período Azuchi-Momoyama (1573-1603) o general Toyotomi Hideyoshi, que servira Nobunaga, sucedeu seu antigo senhor.
Chacha princesa de alto escalão acaba virando concubina de Toyotomi Hideyoshi, o homem que matou sua família e tornou-se após a morte de Oda o homem mais poderoso do Japão, com ele tem um filho chamado Hideyori, no final do relato o romance narra à luta de Chacha para que Hideory fosse o sucessor do pai, mas as forças de Tokugawa derrotaram o clã de Hideyoshi, levando a morte de Chacha e de Hideyori, seu filho.

A poesia e a barbárie no texto.

O tom poético, elemento importante da literatura japonesa, fica por conta dos momentos íntimos, dos pensamentos e da contemplação da natureza.
Ao contrario o lado atroz o encontramos na crueldade com que são tratados os prisioneiros de guerra, quase sempre exterminados de forma fria e sádica. Muitas vezes obrigados a cometerem suicídio em um ato chamado seppuku.
Aqui alguns exemplos destes dois sentidos:
Do sentido poético.
Na infância de Chacha ocorre uma cena curiosa: Um pintor fazia um retrato de seu falecido pai , o artista ia e voltava com resultados parciais, a mãe esperava ver o olhar sereno de seu defunto esposo na pintura, Sacha ao contrario não encontrava no esboço o olhar severo de seu pai. Mãe e filha ponderam sobre qual das imagens pessoais se aproxima mais do verdadeiro.
Agora um exemplo da arte japonesa: no vestido de noiva da mãe de Chacha ela veste um quimono branco com o emblema saiwaibishi.





Outro exemplo do poético no texto o encontrou quando a mãe de Chacha e seu conjugue sofrem um ataque militar no seu castelo e se preparam para a cerimônia do suicídio. Ela escreve: “Na já sonolenta noite de verão/ ao caminho dos sonhos/ convida o rouxinol. E seu marido responde:” Na triste noite de verão/leva minha amada/ pelo caminho dos sonhos/À fonte das neves/Ó rouxinol das montanhas”.
Do sentido desumano.
As descrições sádicas incluem cortar cabeças e colocar-las como enfeite nas festas, incendiar, destruir e exterminar.
Um outro exemplo de uma violência desnecessária o encontramos na passagem na qual um guerreiro chamado Morimasa estava sendo especialmente procurado durante o período de guerras, ele sempre conseguia atacar e fugir sem poder ser localizado.
Um grupo de 12 camponeses consegue prender o combatente e quando entregam o prisioneiro ao Hideyoshi este manda crucificar os camponeses por terem se envolvido em historias de samurais, que não lhe diziam respeito.

As historias paralelas.


A diferença de um conto, um romance longo como este, narra uma historia e ao mesmo tempo tece uma infinidade de historias secundarias.
Neste livro temos, por exemplo, a historia das irmãs da ChaCha, a de seus amores platônicos, a relação dela com as outras concubinas em especial com sua prima Kyogoku e com a esposa oficial de Hideyoshi: Kitanomandokoro .
A luta para engravidar e a morte do seu primeiro filho.
A sua eterna solidão ao ser uma mulher em um sentido prisioneira luxuosa de um dono todo poderoso.
As imagens que a perseguem e torturam desde a infância quando teve que sair da sua casa no meio das chamas.
As cerimônias, as festas e os rituais pomposos da sua vida aristocrática.

Os cortejos.


Uma coisa que surpreende é a magnificência dos cortejos, vamos citar um deles: “O cortejo avançava lentamente na brisa de maio. Em duas fileiras , vinham 300 baús; logo atrás, homens carregando espadas, lanças e fuzis. Os vassalos traziam mantos vermelhos e punhais. Em seguida vinham cães vestidos de brocado...”

Final.


Neste romance épico estão reunidos também todos os ingredientes para um grande afresco histórico. 
Yasushi Inque descreve como o era o estatuto das concubinas, o estilo de vida da aristocracia, as tradições guerreiras, a política, a cerimônia do chá e até o belo ritual da florada das cerejeiras.
O Castelo de Yodo é um mosaico de uma época na qual uma mulher tece o percurso de três unificadores, recomendo esta bela ficção inspirada em fatos reais.  

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Sobre a obra de Tanizaki.



Hoje vamos falar sobre dois livros que se debruçam em dois momentos da essência humana: o amor e a perda. Da obra de Tanizaki : “A gata, um homem e duas mulheres” e “o cortador de Juncos”.



O autor.

Tanisaki . Jun’ichiro Tanizaki nasceu em Tóquio, em 1886; morreu em 1965. Estudou literatura japonesa na Universidade Imperial de Tóquio.
Tanizaki no clássico da literatura japonesa: O Conto de Genji,  escreveu sua obra mais relevante: As irmãs Makioka.
 Também escreveu ensaios como "Elogio das sombras" e traduziu para o japonês autores ocidentais, como Stendhal e Oscar Wilde.
O caráter anti-moralista das relações humanas nortearia toda a carreira de Tanizaki, muito provavelmente por sua formação budista que, diferente da cultura cristã, olha desde outro lugar a noção de pecado.

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“A gata, um homem e duas mulheres” .

Poucas narrações têm como protagonista um felino e poucos autores escrevem com tanta aptidão sobre o mundo interior dos animais e dois humanos.
Quem já conviveu com gatos pode se identificar com facilidade com o comportamento da gata Lily e do Shozo seu amo.
Quem se aproxima do relato pode ficar maravilhado ao constatar a sabedoria do Tanizaki , que na época (em 1909), com apenas  23 anos de idade,  conseguia produzir um texto com tanta lucidez em matéria de franqueza e contato apropriado com o mundo interior dos personagens.

O argumento.

Um homem mora com sua mãe, uma gata e sua parceira. A ex mulher tenta manter o elo com o seu ex marido retendo a guarda da gata para si.  Criam-se triângulos entre os dois casais e a gata perturbando o sossego do protagonista que morre de amores pelo felino.

Os recursos literários.

O conto começa com uma carta de Shinako ex mulher de Shozo para sua atual mulher Fufuko pedindo ficar com Lily (a gata).
A narração se desenvolve em nove capítulos e o narrador onisciente se altera com diálogos entre os personagens e reflexões interiores escritas em letra itálica.

A critica das criticas.

Quando escrevo estas resenhas tenho por costume consultar as críticas que fazem do livro em questão. Neste caso a única que achei própria foi o do Elias Fajardo publicado no caderno de cultura do jornal O Globo que entende que o livro transita entre a beleza e a melancolia 
Publicada no portal “Escotilha” Marilia Kubota, erroneamente, destaca o erotismo, a possessão, a perversidade; sugerindo até uma relação sexual entre a gata e seu amo.
Na Amazon quem comenta (sem identificação) afirma de modo vulgar: “três fêmeas pela posse deste homem fraco“.
Na edição brasileira erroneamente se comenta, na orelha do livro, que o autor recorre à imagem do felino como uma metáfora das falências das relações humanas.
Na realidade trata-se de uma relação verdadeira entre um homem e uma gata , aqui um relato que comprova esta perspectiva: “Shozo pensava que, por mais inteligente que a gata fosse, não passava de um animal, e se perguntava como –apesar disso- ela conseguia ter um olhar tão expressivo. Estaria de fato pensando em coisas tristes?”.
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 O cortador de juncos.

O título remete à ideia de pobreza, de extrema pobreza (o termo do cortador de juncos é homônimo de desgraçado).
No começo do livro um poema de Yamato Monogatari coloca a questão do amor e sua relação com a realidade social.
O Poema: “Intentei viver como cortador de juncos, mas sem você a vida na baia de Naniwa se tornou o maior fardo”.
No caso, o poema trata sobre a relação de um casal que por conta da situação econômica  precária decidem se separar no intuito de procurarem saídas para seus destinos. Ela consegue casar com um nobre , mas ele não alcança mudar sua situação. Ele encontra ela , mas envergonhado se oculta. No poema o homem descreve a situação de desespero material e nos confessa  como sofre ainda mais por conta da sua separação. 

Argumento.


O protagonista  decide fazer um passeio , visita templos, rios até se  deter para observar a lua num descanso da viagem.  Em este momento do relato o narrador encontra um segundo personagem, que conta a história de sua família. Seu pai, Serihashi, apaixonou-se na juventude por uma jovem de beleza única, Oyu. Ela casou com um nobre e teve um filho com seu cônjuge, o marido morreu, mas a jovem é mantida pela família do esposo falecido. Para conservar os seus privilégios, Oyu não pode se casar. Para ficar junto de sua amada, Serihashi assiste Oyu realizar apresentações musicais e casa com Oshizu uma das irmãs de Oyu.
Oshizu, por sua vez, casa-se apenas para ser leal a Oyu e não pretende consumar a união. Com o tempo, aumentam as fofocas sobre a paixão de Serihashi pela cunhada. O desfecho do triângulo amoroso acaba com Oyu voltando a contrair novo matrimonio com um homem para o qual ela não passava de um enfeite e a consumação do matrimonio de Serihashi com Oshizu
Ficam no ar as belas imagens de Oyu tocando Koto (instrumento japonês) nas festas do luar fazendo suas camareiras realizem danças.

O relato.


O autor realiza muitas referencias à tradição literária  na primeira parte do relato e ao teatro Nô (no sentido de contar uma historia dentro de outra) na segunda parte da historia.
Vamos citar uma situação que ocorre quando o protagonista escuta o canto típico do teatro Nô por parte do homem que narra a historia  de Oyu: “Sua cantoria me soou ofegante e sofrida. Além disso, ele não tinha algo que pudesse considerar uma bela voz, e seu volumem era baixo; mas a música  continha uma simplicidade rústica e elegante e era cantada com bastante técnica. De todo modo, levam-se anos para que um estilo de canto do Nô se consolide propriamente .”
Outra historia paralela interessante envolve um grupo de prostitutas e aparece nas notas de rodapé  :Numa das historias envolve um monge que fica admirado quando uma prostituta responde com um poema; o segundo exemplo um outro monge sonha que uma outra prostituta é a reencarnação de Fugen, tendo confirmada sua visão quando ele a visita e presencia sua ascensão aos céus, montada num elefante branco. 

Desdobramentos no cinema.


O grande diretor Kenji Mizoguchi filmou em 1951 uma adaptação do conto. Aqui algumas cenas do renomado filme “La señorita Oyu”.

Final.

Os dois textos são belíssimos e contem toda a elegância e a discrição da essência do ser japonês.
As relações humanas costuradas nos dois relatos expõem a complexidade das circunstancias que intervém na direção da realização amorosa do homem.










sábado, 9 de fevereiro de 2019

O portal


Natsume Sōseki : 


Natsume Sōseki  (1867–1916) é o pseudônimo literário de Natsume Kinnosuke ,  (夏目 漱石),  o significado de seu nome artístico  Sōseki“ é “o teimoso”. Ele é considerado um dos escritores mais importantes da literatura japonesa.
Natsume é um ótimo narrador que descreve com muito bom gosto a sociedade japonesa do começo do século XX. Seu contato com a literatura inglesa permitiu que ele fosse professor da Universidade Imperial de Tókio. A obra que hoje comentamos: “O portal” completa a trilogia iniciada com Sanshiro e Daisuke.

O portal.

A narração parece não ter ação, não ter núcleo dramático; o autor parece descrever costumes, paisagens e mundo interior, como se alguém nos convida para que olhemos sem pressa para o cotidiano de um casal por trás de uma câmara oculta.
Nada acontece, mas parece que há algo de estranho no relacionamento entre Sosuke Nonaka  e Oyone, o casal de meia-idade que protagoniza o livro.
Sem nenhum tipo de sobre saltos o casal mergulha numa mesmice apática e nessa rotina que os protagonistas perdem forças até para um pequeno presente que possa atrair um colorido aos seus dias.
Num momento Sosuke (empregado público) desiste de comprar uma nova gravata em uma loja com o argumento de que no seu trabalho a presença de uma gravata nova não faria sentido. Aqui o trecho: “As cores dessa gravata eram bem melhores do que ele vinha usando todos os dias; chegou a fazer menção de entrar na loja para perguntar o preço, mas, ao cabo de pensar melhor, achou que seria estúpido aparecer no dia seguinte com uma gravata diferente”.
A trama parece querer apenas descrever o afável tédio do casal protagonista: “pessoas triviais pintadas com cores desbotadas” diz o narrador. Mas aos poucos, com a chegada do irmão caçula de Sosuke, o Koroku, a vida começou a mudar.
No final do livro Sosuke na procura de alguma transcendência para sua vida passa uns dias em um mosteiro budista; o titulo do livro: “O portal” faz referencia, justamente, a esse limite que temos que transpassar quando a vida nos apresenta uma escolha.
Metáfora de liberdade, de ruptura ou de resignação a ação de atravessar o portal serve como um desafio existencial para Sosuke; finalmente sua atitude pusilânime o devolve a sua rotina e sua vida retoma a letargia.
Durante os dias que passou no templo o monge proporciona para o protagonista um paradoxo apresentando a questão de quem somos fora de nosso “eu”. Estritamente a pergunta feita a Sosuke foi: quem era ele antes de pertencer ao mundo material, à pergunta não teve resposta do iniciado.
Durante o relato o casal, Sosuke e Oyone, (quando jovens) são protagonistas de uma cena que produz rumores desreipetuosos, este ato faz que eles fujam da vida social e até familiar. Olhando os fatos com a perspectiva dos dias de hoje, aquela cena não teria a menor importância, para compreender o caso é preciso levar em conta a realidade moral em que a história foi escrita. 

Contexto cultural.


Fora o valor literário,  existem várias referencias a tecidos, quimonos, biombos, livros, costumes, teatro, poemas, jogos e pinturas que nos permitem conhecer como era o Japão antigamente.
Por exemplo, o Baori, uma casaca usada sobre o quimono.ou o Kosode (quimono de mangas curtas) ou a seda Meisen, o tecido Omeshi e o Rotsumugi.
Também a partir da narração conhecemos alguns artistas especialistas em pintar biombos como Ganku (na imagem 3), Sakai e Ganta.
O autor faz referencias no relato a um livro antigo (Edo no sumago), o teatro joruri  (imagem 2) e um jogo de cartas que trazem poemas (utagaruta imagem 4) .

Final.

O livro nos permite conhecer o Japão antigo, nos mostra com detalhes e sem pressa nenhuma o cotidiano de um casal e no final nos faz refletir sobre uma experiência transcendente. Soseki é dono de uma literatura prazerosa e delicada.